A luta com as sombras

C. G. Jung
Aspectos do Drama Contemporâneo
Petrópolis, Vozes, 1990
Excertos adaptados

A luta com as sombras

Os acontecimentos indescritíveis que caracterizaram a última década trouxeram consigo a suspeita de que, possivelmente, a sua causa estaria ligada a um distúrbio psicológico especial. Não é muito fácil apresentar o ponto de vista da psicopatologia, pois é necessário ter em consideração que, muitas vezes, o público desconhece esse campo tão difícil e especializado. No entanto, uma regra bem simples deve ser sempre lembrada: a psicopatologia de massas tem as suas raízes na psicopatologia individual. Fenómenos psíquicos desse porte podem ser investigados no indivíduo. E somente quando se consegue constatar que certas formas de manifestação ou sintomas constituem o somatório de diferentes indivíduos é que se pode dar início a uma investigação dos fenómenos de massa correspondentes.

Como provavelmente sabem, a minha investigação compreende a psicologia da consciência, a do inconsciente e a pesquisa dos sonhos. Os sonhos são os produtos naturais da actividade psíquica inconsciente. Já sabemos há bastante tempo que existe uma relação biológica entre os processos inconscientes e a actividade do entendimento consciente. Essa relação pode ser descrita como uma compensação, o que significa que falta alguma coisa na consciência, ou por outras palavras, o exagero, a unilateralidade ou a perda de uma função vê-se compensada por um processo inconsciente correspondente.

Já em 1918 pude verificar no inconsciente de alguns pacientes alemães certos distúrbios que não podiam ser atribuídos à sua psicologia pessoal. Tais fenómenos impessoais manifestavam-se sempre nos sonhos através de motivos mitológicos, como é também o caso das lendas e contos de todas as partes do mundo. Denominei esses motivos mitológicos de arquétipos, que são os modos ou formas típicas como esses fenómenos colectivos são vivenciados. Em cada um dos meus pacientes alemães pude constatar um distúrbio do inconsciente colectivo. É possível explicar essas derivações pela causalidade mas a explicação causal não satisfaz, pois compreendemos os arquétipos mais facilmente a partir das suas finalidades do que propriamente das suas causas.

Os arquétipos que pude observar exprimiam primitivismo, violência e crueldade. Como vi tais casos em demasia, concentrei a minha atenção no curioso estado mental que predominava então na Alemanha. Entretanto, só consegui distinguir sinais de depressão e de grande agitação que, na verdade, não aplacaram as minhas inquietações. Num artigo publicado nessa ocasião, exprimi a minha suspeita de que a “blonde Bestie” (a besta loura) se movimentava num sono intranquilo e de que uma irrupção não era de modo algum impossível.

Essa conjuntura de factos não era apenas uma manifestação teutónica, como se viu nos anos seguintes. O ataque tempestuoso das forças arcaicas foi quase universal. A principal diferença residia na própria mentalidade alemã que, devido à sua extraordinária tendência para a massificação, se mostrou mais propícia. Ademais, a derrota e a calamidade social fortaleceram o instinto gregário na Alemanha, aumentando a probabilidade de vir a ser a primeira vítima de entre as nações ocidentais – vítima de um movimento de massas, desencadeado pela insurreição de forças adormecidas no inconsciente, dispostas a romper o conjunto dos limites morais.

Em geral, essas forças podem ser entendidas como compensação. Quando essa espécie de movimento compensatório do inconsciente não consegue ser absorvido pela consciência individual, pode gerar uma neurose ou até uma psicose, e o mesmo vale para o colectivo. É evidente que para se produzir um movimento compensatório desse tipo, é preciso que algo esteja fora de ordem na atitude consciente; algo deve estar invertido ou fora de proporções, pois somente uma consciência desequilibrada pode provocar um movimento contrário no inconsciente.

Como já referi, a maré de primitivismo, de violência, em suma, a expressão de todos os poderes obscuros que havia crescido após a Primeira Grande Guerra, anunciava-se nos sonhos individuais sob a forma de símbolos colectivos e mitológicos. Quando esses símbolos aparecem num grande número de indivíduos e não são assimilados, começam a unir, com grande força magnética, os indivíduos isolados. Assim tem origem uma massa.

Rapidamente surgirá o líder no coração daquele que possuir a menor força de resistência, a menor consciência da responsabilidade e que, devido à sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Libertará das correntes tudo o que está em estado de irrupção e a massa segui-lo-á, com a força arcaica e incontrolável de uma avalanche.

Eu já tinha observado a revolução alemã, por assim dizer, no tubo de ensaio do indivíduo, o que me deu consciência do imenso perigo que a concentração em massa desse tipo de pessoas representava. Naquela ocasião, porém, ainda não sabia se o seu número seria suficiente para tornar inevitável essa irrupção. Tinha oportunidade de seguir de perto um grande número de casos e, desse modo, verificar no tubo de ensaio do indivíduo como se desencadeava a tempestade dessas forças obscuras.

Pude observar como as forças rompiam os limites morais, o auto-controle intelectual do indivíduo e inundavam o mundo consciente. Frequentemente, isso implica um sofrimento e uma destruição pavorosos. Por outro lado, caso o indivíduo seja capaz de se agarrar a um último resto de consciência ou de preservar os vínculos do relacionamento humano, pode surgir no inconsciente, justamente através da confusão do entendimento consciente, uma nova compensação, que possivelmente será integrada pela consciência.

Apareceriam novos símbolos de natureza colectiva que reflectiriam agora forças de ordenamento. Medida, proporção e ordenamento simétrico encontram-se, nesses símbolos, na sua estrutura singularmente matemática e geométrica. Representam uma espécie de eixo e são conhecidos pelo nome de mandalas. Infelizmente, fugiria ao nosso objectivo uma análise mais pormenorizada dessa questão. Contudo, mesmo que pareçam incompreensíveis, gostaria de mencioná-las, pois as mandalas representam um horizonte de esperança tão necessário neste tempo de desordem e extermínio.

O caos e a desordem do mundo reflectem-se de um modo análogo na mente do indivíduo, mas essa falta de orientação é compensada no inconsciente pelos arquétipos da ordem. Devo mais uma vez repetir que, caso esses símbolos da ordem não sejam absorvidos pela consciência, as forças por eles expressas acumulam-se de modo perigoso, como foi o caso há vinte e cinco anos com as forças da destruição e do caos.

A integração de conteúdos inconscientes consiste num acto individual de realização, compreensão e valoração moral. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil, que exige um alto grau de responsabilidade ética. Somente de poucos indivíduos se pode esperar a capacidade para um tal desempenho, e esses não são, em absoluto, os líderes morais da humanidade. A preservação e o desenvolvimento da civilização dependem desses homens singulares, sobretudo se considerarmos que, desde a Primeira Guerra Mundial, se tornou evidente o não-progresso da consciência de massas.

É um facto que a reflexão de espíritos capazes se enriqueceu e que o seu horizonte moral e intelectual se ampliou e progrediu ao adquirir consciência do poder monstruoso do mal e da possibilidade do ser humano de se tornar um joguete nas suas mãos. Todavia, o homem mediano encontra-se na mesma situação em que se encontrava quando a Primeira Guerra terminou. Ficou bastante claro que a grande maioria é incapaz de integrar as forças da ordem. Pelo contrário, parece até provável que essas forças assaltem a consciência de maneira inadvertida e se lancem violentamente contra a nossa vontade. Constatamos os seus primeiros indícios por toda a parte: totalitarismo e servidão ao Estado. O valor e a importância dos indivíduos decrescem rapidamente e desaparecem, cada vez mais, as perspectivas de serem ouvidos.

Como já observei, a irrupção de instintos de massa foi sintoma de um movimento compensatório do inconsciente. Um movimento dessa ordem foi possível devido à alienação do estado de consciência do povo em relação às leis naturais da existência humana. Em consequência da industrialização, amplos círculos da população viram-se desenraizados e aglomerados nos grandes centros.

Essa nova forma de existência, caracterizada pela psicologia de massas e pela dependência social dos factores de oscilação do mercado e dos salários, gerou um indivíduo instável e inseguro e facilmente influenciável. A sua vida passou a depender dos chefes da empresa e dos magnates da indústria, na pressuposição – correcta ou não – de que estes, por sua vez, se deixavam guiar, sobretudo, pelos interesses financeiros. Sabia que poderia transformar-se, a qualquer momento, em vítima das mudanças económicas, sobre as quais não tinha o menor controlo, apesar do seu trabalho consciencioso ou do seu bom desempenho. Não tinha em que se apoiar.

O sistema moral e a política educacional predominantes na Alemanha serviram para tornar os seus cidadãos submissos ao máximo, instaurando a crença de que todo o desejo deve vir de cima, daquele que possui a força “divina” de decisão, exigindo-lhes uma obediência absurda, na medida em que os seus sentimentos de responsabilidade pessoal eram regidos por uma compreensão obstinada do dever.

Não é de admirar, portanto, que justamente a Alemanha tenha sido a grande vítima da psicologia de massas, embora não seja, de modo algum, a única nação a sofrer a ameaça desta doença tão perigosa.