Connie Zweig and Steve Wolf
Romancing the Shadow
New York, The Ballantine Publishing Group, 1997
Excertos adaptados
A perda do trabalho feito com alma: o mito de Sísifo
Num conhecido mito grego, Sísifo, o inteligente rei de Corinto, decidiu desafiar os deuses. Por duas vezes, conseguiu iludir a morte. Para punir o seu orgulho, os deuses decidiram atribuir-lhe uma tarefa tortuosa no mundo subterrâneo: empurrar um rochedo colina acima, que rolaria depois até ao sopé, e de novo teria de ser empurrado até ao cume. Esta tarefa foi-lhe destinada até à eternidade.
Muitas pessoas vivenciam o seu trabalho como o mito de Sísifo: uma tarefa repetitiva e monótona, um esforço sem recompensa e sem utilidade, que não conduz a nada e está condenado ao fracasso. Quer se trate de operários fabris a trabalhar na linha de montagem; de executivos de botões de punho em ouro a assistir a reuniões infindáveis; de donas de casa com pilhas de pratos e roupa para lavar; de alunos a fazerem trabalhos de casa sem qualquer tipo de relevância para as suas vidas: todos se sentem como se estivessem a viver o mito de Sísifo, como se os seus esforços conscienciosos não dessem fruto algum.
Neste tipo de vida, temos a sensação de estar à mercê de um destino impiedoso. À semelhança dos problemas que afectam o planeta a uma escala global, e dos problemas emocionais que uma relação interpessoal envolve, o trabalho parece nunca estar acabado. As tarefas não serão concluídas; o trabalhador não obterá reconhecimento pelo seu trabalho; e a pedra rolará encosta abaixo inexoravelmente. O rochedo, tal como a sombra, obriga-nos a fazer face a limites, a perdas, e à monotonia do quotidiano. Não nos fará vencer a morte, mas pode ensinar-nos segredos, se aprendermos a ouvir.
Talvez sejam as nossas ideias sobre o trabalho que precisam de mudar. Talvez seja a nossa fantasia sobre o trabalho que conduz à frustração, ou mesmo à nossa condenação como Sísifos. Devemos estabelecer uma relação entre o trabalho e a vida da alma, inserir o trabalho no contexto de uma vida mais vasta, e ajudar as pessoas a fazer da sua vida uma obra digna.
O psicólogo James Hillman, que trabalha com os arquétipos, salientou que, para compreender a psicologia do indivíduo ocidental é necessário compreender as ideias e imagens do negócio, já que elas representam a forma como os nossos padrões comportamentais se organizam. Escreve:
Pôr de lado o motivo do lucro; o desejo de possuir; os ideais de salário justo e justiça económica; a amargura causada pelos impostos; as fantasias da inflação e da depressão económica; o apelo da poupança; ignorar as psicopatologias do negociar, juntar, consumir, vender e trabalhar, e continuar a fingir que compreendemos a vida interior das pessoas na nossa sociedade seria equivalente a analisar os camponeses, artesãos, damas e nobres da sociedade medieval sem ter em conta a teologia cristã.
Tal como o Cristianismo era a pedra basilar da sociedade medieval, o trabalho é a pedra basilar da nossa sociedade. O trabalho tornou-se uma religião. É praticado com um fervor religioso e possui todos os ídolos de uma fé. Mas, tragicamente, tal como a religião institucionalizada, perdeu a sua alma.
Que mais desejamos do trabalho? Quando nos sentimos mais vivos e inspirados? Qual é a pedra que empurramos encosta acima, ou seja, o fardo que se interpõe entre nós e um trabalho significativo?