A vindima das razões

Etienne Perrot
La Voie de la Transformation
Paris, La Fontaine de Pierre, 1980
Excertos adaptados

A vindima das razões *

No que diz respeito ao plano colectivo, a minha geração, a dos homens de cinquenta anos, esteve a ponto de ser arrastada pela onda de uma aventura que se reclamava explicitamente de Nietzsche. O nacional-socialismo – de que Zaratustra, mal compreendido, era um dos profetas – foi a ressurreição de um outro deus pagão, esse, germânico, Wotan, o desencadear de forças obscuras num grande povo cuja derrota de 1918, depois de tanto heroísmo, tinha quebrado os quadros, os valores conscientes. É significativo encontrar o generalíssimo Ludendorf junto de Hitler em Munique, por alturas da sua primeira tentativa de putsch, em 1923.

Foi esta enchente de energia psíquica que pôde, no início, entre nós e noutros lados, atrair mais do que um espírito em busca de uma fonte de renovação para a alma ocidental, até ao momento, infelizmente bem depressa chegado, onde se revelou de uma maneira flagrante que os cavaleiros eram incapazes de ter domínio sobre as montadas que tinham feito surgir da sombra: oitenta milhões de homens encontravam-se envolvidos numa loucura colectiva, que não podia terminar senão com um suicídio, porque os seres que ultrapassam toda a medida, todos os limite, acabam, finalmente, por um mecanismo de compensação inconsciente, por suscitar a sua própria perda. A mais perfeita encarnação do nazismo, a ordem militar das S.S., usava um uniforme negro ornamentado de cabeças de mortos. Ao terem semeado a morte, recolheram a morte.

Menos grandiosa, e também menos trágica, mas tocando-nos mais de perto, a onda de febre da Primavera de 1968 deve ser examinada do ponto de vista da psicologia das profundezas. Seria desejável que um estudo de conjunto lhe fosse consagrado desse ângulo: não deixaríamos de aí encontrar ensinamentos para o futuro da nossa sociedade, para o nosso futuro colectivo. Mais modestamente, contentar-me-ei em extrair da complexidade desse tumulto de que fomos testemunhas, e talvez actores, três aspectos essenciais da contestação dos valores estabelecidos, que se tornaram outros tantos símbolos: os paralelepípedos, o erotismo, os alucinogéneos.

O lançamento dos paralelepípedos entrou na história – na pequena ou na grande - pouco importa - para caracterizar o desencadeamento da violência entre os jovens amotinados. Os paralelos são pedras cúbicas; representam a energia inconsciente no que ela tem de mais denso, de mais bruto. A violência que ataca com a ajuda de projécteis minerais os representantes da ordem é acompanhada pelos ímpetos eróticos que transformam o templo da inteligência, a Sorbonne, em lupanar, e os anfiteatros, onde sábios distintos vinham dissertar doutamente sobre os ritos antigos do culto de Baco, em lugares de orgia onde a bacanal atinge o seu auge, sem literatura e sem cosmética. Orgia designa etimologicamente a celebração de Dionísio.

A profanação da Sorbonne possui um sentido ritual, simbólico, um valor de sinal dos tempos de que não devemos ignorar a importância. A Revolução Francesa – a grande – filha da era das Luzes, tinha encontrado a sua consagração filosófica, religiosa – ou anti-religiosa, o que vem dar no mesmo – na cerimónia oficial em que a deusa Razão tinha sido entronizada e venerada em lugar de Notre Dame, isto é, da sabedoria divina, do inconsciente sob o seu aspecto de Mãe de Deus, de Mãe do Si Mesmo [o nó mais intimo da Consciência], no centro do seu santuário, o coração de Paris, aquele coração de França, nação para a qual todos os olhos se tinham então voltado. Com alguma dificuldade, o reino da razão terá durado um século e meio. E qual foi, entre nós, o seu templo por excelência senão a universidade, de que a Sorbonne é o símbolo? E eis o novo ídolo por sua vez destronado, derrubado por rapazes e raparigas que fazem sua a revolta de Nietzsche, aquele professor universitário em ruptura, e que proclamam da forma mais inconscientemente expressiva o declínio do intelecto privado das suas raízes, ressequido, estéril, em cujo lugar eles se esforçam por restaurar Dionísio.

Conscientes, já o somos em demasia. Em nós, o eu monopolizou toda a energia. Esta energia, expandimo-la para fora, multiplicando as realizações exteriores, obras da nossa mão direita, a ponto de atulharmos a terra, e, finalmente, por uma terrível reviravolta das coisas, com o risco de a fazer explodir. Lembremo-nos de que, antes da primeira explosão nuclear, os responsáveis americanos se dedicaram a um estudo muito sério para saber se eles não correriam o risco de provocar uma reacção em cadeia que desintegrasse o planeta, e que as conclusões deste estudo tinham permanecido demasiado evasivas, apesar do que, decidiram tentar a aventura.

Como chegámos a este ponto? Eu digo “nós”, porque há no fundo de cada um qualquer coisa que se sente afinal solidária com uma atitude tão demente. É porque o consciente, fatigado com a sua própria claridade, se põe a vasculhar o escuro, não por dentro (ele tem demasiado medo do inconsciente e evita-o) mas por fora: penetra no centro da matéria, réplica exterior do inconsciente, introduz explosivos monstruosos no fundo da terra e no fundo dos mares, esses elementos maternos. Não sei se reflectiram no simbolismo grandioso deste absurdo prático: as explosões atómicas subterrâneas. O homem-titã tornou-se senhor da energia masculina por excelência, a força solar que roubou aos deuses, caricaturando Prometeu, aquela figura de Cristo, e agora vai descarregá-la no corpo da sua mãe: com o auxílio deste pénis mortal, ele desposa fisicamente a terra, viola-a e mutila-a.

Ao ponto a que chegámos, a única via de salvação consiste em efectuar o retorno: em lugar de se procurar o inconsciente no exterior (teria também podido falar da fuga na velocidade, nos espaços interplanetários), em lugar de se precipitar no inconsciente de cabeça para baixo, para aí encontrar a morte, regressar-se a si próprio, pôr-se a rodar para o lado esquerdo, em direcção ao seu próprio inconsciente. Em concreto o que quer isto dizer?

Apoiar a cabeça entre as mãos e “meditar”? Não, mas algo de muito mais difícil, talvez, porque aparentemente mais fútil, menos digno de nós: acolher os fantasmas, os sonhos, as imagens, os impulsos afectivos que sobem do fundo, e neles projectar a luz da nossa inteligência, consentindo em ver nestes vapores ténues, mensageiros de vida, origem de uma rectificação, de uma renovação. O intelecto encontra aqui a sua fonte e, ao mesmo tempo, o lugar e a dignidade de foco divino. Torna-nos capazes de apreender, de domesticar, de integrar, a pouco e pouco, a energia que dormita no fundo de nós próprios e que espera humildemente, que implora ”com gemidos inefáveis” (Romanos, VIII, 26) o nosso acordo, o nosso “sim” para poder elevar-se da prisão obscura na nossa vida, para aí se expandir e se transformar em ouro. Eis, sem dúvida, uma empresa mais ingrata e materialmente menos frutuosa do que colocar no mercado um aparelho potente, rápido, barulhento, interestelar. Mas as obras da natureza, as obras de Deus, são, aos olhos exteriores, frágeis, lentas, silenciosas. “Na verdade, tu és um deus escondido”, suspirava Isaías (Isaías XLV, 15). A roda de um tractor, a sola de alguém que passa, esmagam a maravilha de delicadeza, de forma e de cor que é uma flor campestre. Mas quem ousará pôr em paralelo um tractor ou mesmo um espectáculo de desporto com uma violeta ou uma papoila? O homem realizado não é para o mundo um rei ou um poderoso: ele parece-se com a violeta e com a papoila. O caminho que leva ao Si Mesmo é estreito como um fio de navalha e ladeado de abismos à direita e à esquerda. Não é senão ao fim de muitos fracassos, de bastantes quedas, que se alcança a justeza que é, ao mesmo tempo, ausência de liberdade, porque adesão total ao inconsciente, e espaço sem limite, uma vez que o inconsciente que se desposa é infinito.

Os hippies americanos tinham tomado por divisa: Make love, not war. Os seus émulos parisienses – porque a revolta da juventude teve em todo o lado o mesmo sentido profundo – tinham ido mais longe: escolheram, quanto a eles, uma forma mais completa de confronto com o inconsciente. Mediam-se com a sombra, o inimigo, encarnado pelos representantes da ordem, vestidos de sombra, delegados do mundo paterno, hostil, e, ao mesmo tempo, procuravam a conjugação com a forma positiva da alma profunda, a anima junguiana, provedora privilegiada da energia instintiva. Abordavam assim dois aspectos essenciais da obra de realização psicológica, mas faziam-no de forma inconsciente.

Projectando para o exterior forças saídas deles próprios, perseguindo fora funções cuja realidade estava dentro, privaram-se de qualquer oportunidade de a integrar. A sua revolução e a sua libertação só podiam sofrer o destino de todas as revoluções e de todas as libertações históricas: deixar nos seus heróis um gosto de amargura, de desilusões e de lamentos ingénuos.

Não poderemos examinar senão brevemente a terceira forma que salientei da contestação de Maio, aquela que se pode considerar a parte central deste tríptico e que é mais actual do que nunca: a utilização de substâncias alucinogéneas para alcançar um ultrapassar do ego. Esta simples menção confirma a justeza da nossa perspectiva: a droga é um meio que busca um contacto desordenado, desajeitado, brutal, mas real, com o domínio inconsciente transpessoal.

Falei noutra ocasião do segredo do santuário e dos guardiães que o protegem. No caso presente, é uma violação do santuário que teve lugar; mas uma violação nunca foi um bom ponto de partida para um casamento, e quando, para além do mais, os deuses são postos em causa, há razões para temer a sua vingança. Existe a mesma diferença entre a domesticação, a integração dos dragões do inconsciente e a irrupção violenta no seu domínio, que entre a canalização da energia de uma torrente e a ruptura da barragem que a retém. A obra psicológica não é simplesmente a experiência sem amanhã do
domínio profundo, ela não é, atesta-o, “um miserável milagre” (**), é a adução, no campo da consciência clara, das formas pelas quais as águas maternas se manifestam, de modo a estabelecer entre o eu e o não-eu, o consciente e o inconsciente, uma corrente de trocas incessantes e harmoniosas.

Ainda que os utilizadores das drogas se gabem de voltar as costas à sociedade ocidental, são ainda prisioneiros de um dos seus preconceitos mais solidamente ancorados: em lugar de se tornarem dóceis à vida, eles querem fazer, agir eles próprios sobre ela, esquecendo que não se abre uma flor com os dedos. Ganhariam, sem dúvida, em meditar sobre aquela frase, já citada, do último sábio do ocidente: Não sou eu que me crio, em vez disso, aconteço-me a mim próprio onde toda a vida de Jung mostra que ele subentende: “não me furtando a nenhuma das minhas tarefas, a nenhum dos meus deveres.” Mas isto reclama, evidentemente, muita paciência e muita humildade.

O breve estudo que consagrámos aos acontecimentos de Maio de 68 mostrou-nos até que ponto a nova geração está cansada das visões teóricas, dos bonitos sistemas, quer sejam materialistas quer espiritualistas, e ávida de uma realização concreta que inclua simultaneamente o espírito, a alma e o corpo. Que depois da explosão de Maio, a ordem tenha regressado a França não deve iludir-nos: esta ordem é tão enganadora, tão frágil, como foi a restauração de Luís XVIII depois dos solavancos da Revolução e do Império. Nada se resolveu. A incapacidade dolorosa dos responsáveis em definir “o homem novo” que a universidade deve formar prova sobejamente a desorientação dos espíritos, e não é de admirar que o novo presidente da República tenha julgado necessário, na sua primeira mensagem oficial, apelar solenemente às autoridade intelectuais e espirituais a que definam o sentido da vida para os homens e mulheres da nossa época. Diversos sinais que Jung soube, melhor do que qualquer outro, pôr em destaque mostram que se trata, hoje, de uma aventura individual.

O que está em nosso poder, o que, por conseguinte, é nosso dever, é iniciar em nós próprios um trabalho corajoso e lúcido de aprofundamento, para reencontrar a fonte e a fazer correr. Este esforço silencioso e solitário é, paradoxalmente, aquele que se revelará, a longo prazo, o mais proveitoso para a comunidade à qual pertencemos. É uma tal ambição, um tal desejo que, em definitivo, nos reúnem aqui.

(*) Curso dado em 18 de Dezembro de 1969.

(**) Miserável Milagre é o título de uma da obras consagradas por Henri Michaux às suas experiência se droga. Um homem vindo da via da droga para a da exploração da alma profunda pelo “deixar acontecer” junguiano declarava-me que ambas conduzem ao mesmo domínio e que a diferença consistia em que a primeira manifesta, sob uma forma caricatural, os dados que a segunda revela. Acrescentarei uma segunda diferença, que é decisiva: é que a nossa via conduz a uma integração que é uma transformação, enquanto na outra, as imagens, depois de terem atravessado o ser, o deixam inalterado e, muitas vezes, empobrecido por aquele fluxo devastador.