As portas do paraíso

Nyogen Senzaki e Paul Reps
101 Histórias Zen
Lisboa, Ed. Presença, 1987

As portas do Paraíso

Um soldado chamado Nobuchiguê foi junto de Hacuíne e perguntou:

— Há realmente um paraíso e um inferno?

— Quem és tu? — quis saber Hacuíne.

— Sou um samurai, — replicou o guerreiro.

— Tu, um soldado? — exclamou Hacuíne. — Que tipo de governante iria escolher-te para a sua guarda? Tens cara de pedinte.

Nobuchiguê ficou tão furioso que começou a puxar pela espada, mas Hacuíne prosseguiu:

— Ah, tens uma espada! Mas o mais certo é a lâmina estar tão embotada que nem conseguirás cortar-me a cabeça!

E, quando Nobuchiguê desembainhou completamente a espada, Hacuíne comentou:

— Aqui se abrem as portas do inferno!

Perante estas palavras, o samurai, compreendendo o estratagema do mestre, voltou a embainhar a arma e fez-lhe uma reverência.

— Aqui se abrem as portas do paraíso, — disse Hacuíne.