O jardim das flores de gelo

O jardim das flores de gelo

Versão de Frances Jenkins Olcott baseada
no poema de William Cullen Bryant

A promessa

Em tempos que já lá vão, morava nas montanhas um camponês, com a sua mulher e a filhinha Eva. A casa ficava num lugar muito bonito, perto de um vale onde corria um riacho ladeado por muitas flores primaveris deliciosamente perfumadas.

Mas, quando vinha o Inverno, o riacho apresentava uma outra beleza. Nas noites de Novembro, brotavam flores exóticas, brancas, com folhas e caules de cristal. Quando o Vento do Inverno soprava com força, descia da montanha um grupo de Criaturinhas da Neve. Pertenciam a uma linda raça de fadas, de longos cabelos brilhantes e vozes parecidas com o som de passinhos a quebrar a neve. Em longas vestes esvoaçantes, algumas vinham voando pelo ar, outras saltitando alegres pelos campos gelados.

Espalhavam cintilantes continhas de gelo prateado sobre a relva e formavam balaustradas reluzentes ao longo do riacho. Construíam pontes de cristal sobre a corrente e, quando tocavam na água, transformavam em vidro a superfície. Depois, sacudiam dos ombros tantos flocos de neve, que este cobriam o mundo inteiro com um manto macio.

Eva já ouvira falar muito desses pequenos seres, mas nunca os vira. Um dia, em pleno Inverno, tinha ela doze anos, resolveu agasalhar-se bem e ir brincar na neve.

— Não te demores muito! — disse a mãe, apertando-lhe o casaco de pele e ajudando-a a calçar as botas. — Não demores muito, porque o vento do Inverno é muito cortante. E não vás além da grande tília que se encontra nos limites da nossa campina.

Eva prometeu tudo isso e saiu de casa a saltitar. Subia os pequenos montes de neve, firmes com o gelo, depois escorregava pelo outro lado, deixando-se deslizar nos locais mais fundos. Brincava sozinha e feliz.

De repente, ao subir a um monte bem mais alto, viu uma menina minúscula sentada na neve. As faces eram como lírios, os cabelos de linho flutuavam e os olhos azuis faiscavam como gelo; o vestido era de um branco menos brilhante do que o rosto.

Quando viu Eva, a minúscula criatura caiu de joelhos e implorou:

— Linda amiga, vem comigo! Já te vi muitas vezes e sei o quanto amas a neve, como constróis enormes bonecos de neve, leões e grifos. Vem, vamos passear por estes campos brilhantes. Vais ver coisas que nunca viste antes!

Eva seguiu a sua nova amiga. Juntas, deslizavam e subiam novamente aos montes brancos, até que chegaram à grande tília.

— Tenho de parar aqui — disse Eva. — Prometi à minha mãe que não iria passar deste ponto.

Mas a Menina da Neve riu.

— O quê? — exclamou — Tens medo da neve, da neve pura, da neve inocente? A neve nunca magoou ninguém. Por certo, a tua mãe fez-te prometer isso porque pensou que ninguém iria guiar-te! Eu mostro-te o caminho, depois trago-te sã e salva até casa.

A fala macia venceu Eva, que quebrou a promessa e seguiu a sua nova companheira. Correram sobre campos reluzentes e deslizaram por um íngreme banco de neve até ao pé de uma enorme montanha de neve. Os ventos haviam cavado uma plataforma curva, que encobria uma grande abertura na montanha.

— Olha! Olha! Vamos entrar por aqui! — gritou alegremente a criaturinha. — Vem, Eva, segue-me.

No jardim das flores de gelo

Eva e a Menina da Neve passaram directamente por baixo da cortina de gelo e chegaram a uma passagem de paredes brancas. No tecto arredondado, estrelas de neve espargiam um lusco-fusco invernal sobre todas as coisas.

Eva seguia atónita, e nem conseguia falar, de tão maravilhada; rindo de alegria, a Menina da Neve ia saltitando à frente. Penetraram cada vez mais fundo, chegando ao coração da montanha de neve. As paredes foram-se alargando e o tecto ficou cada vez mais alto, até se tornar uma grande cúpula branca.

Eva olhou em volta. Encontrava-se num grande jardim silencioso e branco, onde tudo era delicadamente esculpido a gelo.

A seus pés, plantas brancas como a neve, de folhas rendadas e flores salpicadas de gotas cintilantes. Ao lado, frondosas palmeiras de troncos brancos, encimados por brancas plumas. Enormes carvalhos, com troncos de gelo, agitavam os galhos transparentes no ar silencioso; as raízes penetravam em profundidade no gelo reluzente. Ramos de murta e rosas de neve, em flor e em botão, enfeitavam as curvas dos caminhos.

Tudo – flores, folhas, árvores – parecia minuciosamente trabalhado em alabastro. Entre as árvores, havia grinaldas de jasmim, de folhas e ramos tão brancos como as flores. Eva olhava para tudo, encantada com tantas maravilhas.

— Caminha com leveza, querida amiga — disse a Menina da Neve. — Não toques nessas frágeis criações, nem deixes roçar a tua saia. — Agora, olha para cima e observa como resplandece este jardim de flores de gelo! Vê estes cambiantes de luz, que parecem ir e vir tão suavemente. São as Luzes do Norte, que tornam tão lindo o nosso Palácio de Inverno! Nas longas noites frias, eu e os meus companheiros, as Criaturinhas da Neve, cuidamos deste jardim tão cheio de beleza. Guiamos até cá os flocos de neve perdidos e dispomo-los de mil maneiras graciosas, formando estas altas colunas, os arcos cintilantes, as árvores brancas e as lindas flores de gelo. — Mas agora vem, querida Eva, vou mostrar- te uma coisa ainda mais maravilhosa.

A dança das Criaturinhas da Neve

Enquanto falava, a Menina da Neve conduziu Eva junto de uma vidraça de gelo transparente encaixada na parede de neve.

— Olha — disse ela — mas não podes entrar.

Eva olhou. Oh! Viu um glorioso, refulgente salão de palácio; da majestosa abóbada caíam faixas de luzes cintilantes cor-de rosa, de um verde delicado e de um azul suave. As luzes fluíam até ao chão, envolvendo em matizes de arco-íris uma alegre multidão de criaturinhas que rodopiavam, dançando alegremente. Soava uma música prateada, de címbalos de gelo transparente, habilidosamente tocados pelas minúsculas mãos.

Rodavam e dançavam, flutuando sob o domo de luzes coloridas. Os olhinhos brilhavam sob as sobrancelhas cor de lírio. Os diáfanos cachecóis, luzindo como grinaldas de neve ao sol, flutuavam no vertiginoso rodopiar.

Eva ficou em transe, maravilhada com as Criaturinhas da Neve que dançavam e giravam nas luzes coloridas, passando ligeiras pela janela de gelo. Durante longo tempo ficou a olhar fixamente, escutando os doces sons que vibravam no ar gelado. Sentiu o frio intenso enrijecer-lhe as pernas e os braços, e lembrou-se então da promessa que fizera à mãe.

A promessa quebrada

— Ai de mim! — chorou ela. — É demais, demais, estou aqui há tempo demais! Oh, que maldade, quebrei minha promessa! O que é que eles vão pensar, os meus queridos lá em casa?

Depressa achou a passagem de neve e começou a caminhar em direcção à luz, enquanto a Menina da Neve corria a seu lado, guiando-lhe os passos.

Quando voltou ao ar livre, uma rajada de vento gelado atingiu-a, vinda do norte, provocando-lhe formigueiros e fazendo-a encolher-se de terror. Mas a pequena Menina da Neve, ao sentir o vento cortante, saltitou em frente, dando gritinhos de alegria, pulando de monte em monte. Dançava em redor de Eva, enquanto a pobre criança subia enfraquecida os montes de gelo escorregadio.

— Ai de mim — suspirou Eva, por fim. — Ai de mim! Os meus olhos estão pesados. Estão a forçar-me a dormir.

Enquanto falava, as suas pálpebras fecharam-se, e ela caiu no chão e adormeceu. A Menina da Neve ficou ao seu lado, vigiando o seu sono. Viu o rosado desaparecer da face de Eva e as sobrancelhas ficarem brancas como o mármore; lentamente a respiração extinguiu-se-lhe. O seu corpo ficou completamente imóvel. A Menina da Neve esforçou-se por acordá-la, puxando-lhe o vestido, gritando-lho ao ouvidos, mas tudo em vão.

De repente, ouviram-se sons de passos a estalarem na neve. Eram os pais de Eva à procura da filha perdida. Encontraram-na, deitada como uma estátua de mármore no seu sono mortal. A Menina da Neve contou-lhes como tinha levado Eva para o jardim das flores de gelo, e os seus corações apertaram-se de angústia.

Transportaram a filhinha querida para casa e, por mais que lhe esfregassem os braços e as pernas e lhe banhassem o rosto, ela nunca mais acordou. A menina estava morta.

Chegou o dia do funeral. Enterraram Eva no lado branco do vale. Das rochas e montanhas à volta, mil vozinhas se elevaram, suspirando, chorando, e os ecos flutuaram em todas as direcções, cobrindo todos os campos gelados.

Desde aquele dia, as Criaturinhas da Neve nunca mais foram vistas. Mas, a partir dali, durante as noites frias de Inverno, invisíveis mãozinhas minúsculas nunca mais deixaram de tecer em redor do túmulo de Eva, lindas grinaldas de gelo e ramalhetes de orvalho prateado, com a forma de belas flores.