Jeremiah Abrams (org)
O Reencontro da Criança Interior
S. Paulo, Cultrix, 1999
Excertos adaptados
O lado sombra do quotidiano
Connie Zweig e Jeremiah Abrams
Como é possível haver tanta maldade no mundo?
Conhecendo a humanidade, pergunto-me
como é que não existe ainda mais.
WOODY ALLEN, Hannah e as suas Irmãs
Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma mudança drástica de carácter, tão drástica que se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr. Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade ia assumindo proporções cada vez maiores à medida que o sonho se desenrolava.
Stevenson relatou o sonho no seu romance hoje famoso O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde. E o tema integrou-se de tal modo na cultura popular que pensamos sempre nele quando ouvimos alguém dizer: “Eu não estava em mim”, “Ele parecia possuído por um demónio”, ou ainda, “Ela transformou-se numa megera”. Como refere o psicanalista junguiano John Sanford, quando uma história como esta nos toca tão fundo e nos soa tão verdadeira é porque contém uma qualidade arquetípica – dirige-se a uma dimensão nossa que é universal.
Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para uso quotidiano e um “eu” oculto e nocturno que permanece silenciado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos – tais como raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, luxúria, cobiça, tendências suicidas e homicidas – permanecem ocultos imediatamente abaixo da superfície, mascarados pelo nosso “eu” mais adaptado às situações. No seu conjunto, são conhecidos em psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser, para a maioria das pessoas, um território indomado e inexplorado.
A apresentação da sombra
Carl Jung viu em si mesmo a inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve na sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections [Memórias, Sonhos, Reflexões]:
Era noite. Num lugar desconhecido eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade. Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Sentia que precisava de a manter acesa, pois tudo dependia disso.
De súbito, tive a sensação de que estava a ser seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura que seguia os meus passos. Mas, no mesmo instante, tive consciência, apesar do meu terror, de que precisava de atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo algum.
Ao acordar, percebi de imediato que tinha sonhado com a minha própria sombra, projectada no nevoeiro pela pequena luz que eu transportava. Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela ainda é uma luz, a minha única luz.
A negação da sombra
A sombra é, por natureza, difícil de apreender, perigosa, turbulenta e sempre escondida, como se a luz da consciência lhe roubasse a própria vida. Não podemos pois analisar directamente este domínio oculto.
O psicanalista junguiano James Hillman, autor de diversas obras, afirma: “O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem o seu lado escuro, o Sol põe-se e não pode brilhar em todo o lado ao mesmo tempo, e até mesmo Deus tem duas mãos. A atenção e a concentração requerem que algumas coisas permaneçam fora do campo de visão, permaneçam na sombra. Não se pode olhar para ambos os lados ao mesmo tempo.”
Por esta razão e, na maior parte dos casos, vemos a sombra de forma indirecta, nas características e atitudes desagradáveis dos outros, ou seja no exterior, onde é mais seguro observá-la. Quando reagimos intensamente à(s) qualidade(s) negativas de um indivíduo ou grupo – tais como a preguiça, a estupidez ou a sensualidade – e nos surpreendemos pelas nossas reacções de grande aversão, pode ser a nossa sombra a manifestar-se. Nós projectamo-la, atribuindo a referida qualidade à outra pessoa, como forma inconsciente de a expulsarmos de nós, de deixarmos de a ver dentro de nós.
Assim sendo, a sombra pessoal é essa parte do inconsciente que complementa o ego e que representa aquelas características que a personalidade consciente não deseja reconhecer. Por isso mesmo, rejeita-as, esquece-as e oculta-as, sendo apenas descobertas em confrontos desagradáveis com terceiros.
Apesar de não podermos contemplá-la directamente, a sombra manifesta-se no quotidiano. Por exemplo, encontramo-la no humor, ou seja, nas anedotas obscenas ou na comédia grosseira, que expressam as nossas emoções escondidas, inferiores e temidas. Quando observamos atentamente aquilo que para nós tem comicidade – como, por exemplo, alguém a escorregar numa casca de banana, ou a referência a partes tabus do corpo – descobrimos que a sombra está activa.
A psicanalista inglesa Molly Tuby sugere seis outras formas segundo as quais a sombra se manifesta inconscientemente todos os dias:
- nos nossos sentimentos exagerados em relação aos outros (“ Nunca imaginei que ele pudesse fazer tal coisa!”, “Não sei como ela é capaz de andar com aquela roupa!”);
- nas reacções negativas daqueles que nos servem de espelho (“É a terceira vez que chegas atrasado sem me avisar.”);
- naquelas interacções em que exercemos continuamente o mesmo efeito perturbador em diferentes pessoas (“O Sam e eu achamos que não foste honesto connosco.”);
- nos nossos actos impulsivos e inadvertidos (“Bem… não era isto que eu queria dizer.”);
- em situações nas quais nos sentimos humilhados (“Sinto-me tão mal com a forma como ele me trata!”);
- na nossa raiva exagerada relativamente aos erros dos outros (“Parece que ela nunca consegue fazer o trabalho a horas”, “Francamente, ele deixou que o seu peso se descontrolasse completamente.”).
É nos momentos em que somos invadidos por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou achamos que o nosso comportamento está a ultrapassar os limites, que a sombra irrompe inesperadamente. Normalmente também regride com a mesma rapidez, porque o encontro com a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a nossa auto-imagem.
Por este motivo, podemos rapidamente enveredar pela negação, tendo dificuldade de nos apercebermos das fantasias criminosas, dos pensamentos suicidas ou das invejas embaraçosas que poderão revelar um pouco do nosso lado oculto. O já falecido psiquiatra R. D. Laing descreveu poeticamente a atitude de negação da mente:
O alcance daquilo que pensamos e fazemos
está limitado por aquilo que deixamos de notar.
E porque não notamos
que não notamos
é pouco o que podemos fazer para mudar
até que notamos como o deixar de notar
molda os nossos pensamentos e actos.
Se a negação persistir, podemos não notar que deixamos de notar, como refere Laing.
A depressão pode também ser um confronto paralisante com o lado oculto. A exigência interna no sentido de uma descida ao mundo subterrâneo pode ser anulada por preocupações externas, tais como a necessidade de trabalhar horas extras, as diversões ou os medicamentos anti-depressivos que abafam os nossos sentimentos de desespero. Neste caso, não chegamos a compreender o propósito da nossa melancolia.
Encontrarmos a sombra requer que abrandemos o ritmo de vida, que prestemos atenção aos indícios que o corpo nos fornece, e nos permitamos estar sozinhos, de forma a assimilarmos as mensagens enigmáticas do mundo interior.
Continua: A sombra colectiva