O rito da guerra e a psique do guerreiro

Sam Keen
O homem na sua plenitude
S. Paulo, Cultrix, 1998
Excertos adaptados

O rito da guerra e a psique do guerreiro

Se os homens fossem da espécie Homo Sapiens, não haveria guerra.

Eu tinha catorze anos quando lutei de verdade pela primeira vez. Já não me lembro do motivo da briga: talvez uma rapariga, talvez um insulto casual no autocarro da escola, talvez porque “o inimigo” morava do outro lado da linha imaginária, na rua Bellefonte, e frequentasse outra escola.

Charley era meio efeminado: peito cavado, ombros caídos, caminhava com um passo longo de macaco. Declarada que foi a guerra, concordámos em encontrar-nos num terreno baldio. Na hora aprazada, aparecemos no campo de batalha, acompanhados pelos respectivos companheiros de bando.

Durante algum tempo, limitámo-nos a circular um em volta do outro, esperando que um de nós desse o primeiro murro. “Que queres?” “Se me puseres a mão em cima, dou cabo de ti.” Aproximámo-nos um pouco mais. Começámos a empurrar-nos, e o primeiro punho atingiu me em cheio o nariz. “Maldição!”, gritei.

Eu era melhor na luta do que no boxe. Pensei então numa estratégia. Atirei-me ao chão, agarrei-lhe as pernas e derrubei-o. Mas, depois de muito rolar, com o braço encolhido, esperneando, acabei debaixo dele, sem me poder mover. “Desiste”, gritou, “ou parto-te o braço.”

Torceu-me o braço e esfregou-me a cara no cascalho. “Rendes-te?” Doía-me o rosto, mas doía-me muito menos do que o orgulho. Ambos sabíamos que eu estava derrotado, mesmo que não quisesse admiti-lo. Por isso, soltou-me o braço e, depois de algumas descomposturas e humilhações obrigatórias, fomos para casa.

Naquela noite, seguindo à risca o enredo das histórias de quadradinhos, jurei que nunca mais seria esmurrado por um maldito “maricas”. Mandei vir um curso de Charles Atlas e comecei a transformar um fracote de quarenta e seis quilos numa máquina magra e pequena de combate. No segredo do meu quarto, praticava “tensão dinâmica”, levantava pesos, fazia exercícios abdominais e de levantamento de pernas.

Mais tarde, fiz um curso de luta livre. Durante anos, mesmo depois de entrar na casa dos trinta, exercitei-me na Associação Cristã de Rapazes. Aperfeiçoei as minhas técnicas de agarrar e derrubar o adversário e, uma vez por outra, entrei em competições na classe dos pesos médios. Nunca fui campeão, mas aprendi a gostar de lutar. E nunca mais ninguém me esfregou o rosto no chão.

Entretanto, estudava filosofia e afiava as armas da dialéctica, do debate e da argumentação. Já com um doutoramento, tinha a mente ainda mais qualificada do que o corpo na arte da defesa pessoal. Como professor, participava de combates diários com colegas e alunos. Era bom no jogo académico, gostava dele e jogava para vencer.

E não notei que, com o passar dos anos, fui adoptando aos poucos uma atitude combativa em relação aos demais – a mente e a postura do guerreiro. Eu era muito melhor a lutar do que a reflectir ou a amar.

Agentes da violência

Por que é que o génio que nos deu a Capela Sistina nos levou à beira do cosmocídio? Por que é que os melhores e os mais brilhantes seres humanos exercitaram a inteligência, a imaginação e a energia, e só conseguiram criar um mundo em que a fome e a guerra são mais comuns do que nos tempos neolíticos? Por que é que a história do que nos atrevemos a chamar “progresso” foi e tem sido marcada pelo aumento do sofrimento humano?

Não será porque os homens estão decididos a ser vorazes, agressivos e brutais? Estará algum gene egoísta, algum imperativo territorial a impelir-nos cegamente para a acção hostil? Estará a história de Caim e Abel gravada para sempre no nosso ADN? Estará o excesso de testosterona a condenar-nos à violência e a infartes prematuros?

Como os homens têm sido, historicamente, os principais agentes da violência, é tentador atribuir a culpa à nossa biologia e concluir que o problema reside mais no projecto equivocado da natureza do que na nossa obstinação. Mas todas as explicações deterministas passam por cima do óbvio: os homens são sistematicamente condicionados para suportar a dor, para matar e morrer ao serviço do grupo, da nação ou do Estado.

A psique masculina é, antes de mais nada, a psique do guerreiro. Nada nos molda e modela tanto como a exigência da sociedade de que nos tornemos especialistas no uso do poder e da violência, ou, como dizemos eufemisticamente, na “defesa”. Historicamente, a principal diferença entre homens e mulheres é que sempre se esperou que os homens fossem capazes de recorrer à violência quando necessário. A capacidade e a disposição para a violência têm sido centrais na nossa auto-definição. A psique masculina não foi construída sobre o racional: Penso, logo existo, mas sobre o irracional: Conquisto, logo existo.

Quanto ao que veio a tornar-se o estado de emergência banal da vida moderna, concedemos ao Estado o poder de interromper a vida dos rapazes, de os convocar para servir o exército e para os iniciar no ritual da violência. Clichés que passam por serem palavras de sabedoria dizem-nos: O exército faz de ti um homem, e Todos os homens precisam de ter o seu combate.

O ingresso no exército ou – se se é um dos “poucos felizardos” – na marinha, envolve o mesmo processo de destruição sistemática da individualidade que acompanhava a iniciação nas tribos primitivas. A cabeça rapada, o uniforme, os abusivos instrutores de exercícios, as provas de iniciação física e emocional da instrução dos recrutas da marinha, visam destruir a vontade do indivíduo e ensinar ao recruta que a virtude fundamental do homem é não a de pensar por si mesmo, mas antes a de obedecer aos superiores, não seguir o que lhe ordena a consciência, mas cumprir ordens.

Como os ritos de todas as sociedades guerreiras, isto ensina os homens a dar valor ao que é duro e a desprezar o que é “feminino” e terno. Em parte alguma como nas forças armadas, aprendemos com tanta clareza a máxima primitiva de que o indivíduo precisa de se sacrificar à vontade do grupo, vontade essa representada pelas autoridades e pelos líderes.

Na iniciação mítica, o neófito identifica-se com os heróis tribais, cuja história proporciona o modelo que irá ser sobreposto à sua biografia. Que esse modo mítico-místico de iniciação ainda se encontra vigente na chamada “mente moderna” é o que pode ver-se nas contínuas referências ao grande herói americano John Wayne, e na literatura sobre a experiência vietnamita.

“A guerra era vista como uma prova de virilidade em que John Wayne matava todos os inimigos… Ocorriam-me imagens de filmes de John Wayne em que eu era o herói… As pessoas vêem os maus e os bons na televisão e no cinema… Eu queria matar o mau.” Os primeiros cristãos aprendiam que a vida autêntica era uma “imitação de Cristo”; os iniciados nos cultos de mistério transformavam-se no deus Dionísio; os “bons” americanos que iam para a guerra transformavam-se em John Wayne, o homem mítico divinizado e imortalizado pelos media.

Nos últimos quatro mil anos, o baptismo de fogo tem sido um grande rito masculino de iniciação. A meta do homem era conquistar a medalha de bravura. Numa reportagem sobre o Vietname, Phillip Caputo expõe a tradição de uma forma clássica: “Antes do combate, aqueles fuzileiros navais ajustam-se a ambas as definições da palavra infantaria que, ou significa “corpo de soldados equipados para o serviço a pé”, ou “infantes, meninos, jovens, em colectividade”.

A diferença era que a segunda definição já não podia ser-lhes aplicada. Tendo recebido o sacramento fundamental da guerra, o baptismo de fogo, a sua meninice tinha ficado para trás. Na ocasião, nem eles nem eu pensávamos nisso nesses termos. Não dizíamos: “Estivemos debaixo de fogo, derramámos sangue, agora somos homens.” Simplesmente tínhamos consciência, de um modo que não podíamos expressar, de que alguma coisa significativa nos acontecera.

Todos os homens estão marcados pelo sistema da guerra e pelas virtudes militares. Todos se perguntam: “Sou homem? Sou capaz de matar? Posto à prova, revelar-me-ei um bravo? Tem alguma importância o facto de eu ter realmente matado ou de me ter arriscado a ser morto? Dar-me-iam mais ou menos valor se eu tivesse sido submetido ao baptismo de fogo? Eu dar-me-ia mais ou menos valor? Que mistério especial envolve o iniciado, o veterano? Que certificado de virilidade se equipara ao Purple Heart ou à Medalha de Honra do Congresso?”

Os homens foram todos programados culturalmente para conquistar, matar ou morrer. E quase todos cresceram sentindo-se, de certo modo, inferiores e com a certeza de que não tinham passado a prova da masculinidade. Desconfio que muitos escritores ainda estão a mostrar aos valentões do bairro que a pena é mais forte do que a espada.

A prova modelou-nos, quer tenhamos sido nós a lançar as bombas ou quer tenhamos sido apanhados por elas.

Afinal, somos todos feridos de guerra.

De: http://planetaeclipse.wordpress.com/