Os marginalizados da América

Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)
Meeting the Shadow – The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature
London, Penguin Books, 2000
Excertos adaptados

Os marginalizados da América
Audre Lorde

A maior parte da história europeia condiciona de forma simplista a nossa visão das diferenças: patrão/empregado; bom/mau; em cima/em baixo; superior/inferior. Numa sociedade na qual os bens são definidos em termos de lucro e não em termos de necessidade, haverá sempre um grupo de pessoas que, mercê de uma opressão sistemática exercida sobre elas, se sentirá a mais. Na nossa sociedade, este grupo é constituído pelos negros, pelos povos do Terceiro Mundo, pelos operários, pelos idosos e pelas mulheres.

É óbvio que há diferenças de raça, de idade e de sexo. Mas não são essas diferenças que nos separam. O que nos separa é a nossa recusa em reconhecer essas diferenças e em examinar as distorções que resultam de as classificarmos erradamente.

Racismo, a crença na superioridade inerente de uma raça e do seu direito ao domínio. Sexismo, a crença na superioridade inerente de um sexo e do seu direito à dominação. Ageísmo (Discriminação etária). Heterossexismo. Elitismo. Classismo.

Tentar ver essas distorções no nosso quotidiano é a tarefa de uma vida, para cada um de nós. Fomos todos criados numa sociedade em que essas distorções são endémicas às nossas vivências. Muitas vezes, em vez de reconhecermos as diferenças, fingimos que se trata de barreiras insuperáveis, ou que, pura e simplesmente, não existem. Esta atitude resulta num isolamento voluntário ou em relações falsas e traiçoeiras. Não falamos de diferenças. Falamos de desvios.

Ao ignorarmos o passado, como o fazemos com a discriminação etária, somos levados a repetir os seus erros. O “conflito de gerações” é uma ferramenta social importante nas mãos de qualquer sociedade repressora. Se os membros mais jovens de uma comunidade virem os mais velhos como desprezíveis, excedentários ou suspeitos, nunca se poderão ajudar mutuamente, a fim de examinarem as memórias vivas da comunidade. Isto conduz-nos a uma amnésia histórica que nos leva a repetir sempre os mesmos erros.

Tal acontece porque não ligamos ao que aprendemos ou porque não escutamos. Ignorar as diferenças de raça entre as mulheres traz sérias complicações à sua mobilização no sentido de lutar por uma maior igualdade. Na medida em que as mulheres brancas ignoram o privilégio inato de serem brancas e definem mulher apenas em termos da sua própria experiência, as mulheres de cor tornam-se as “outras”, as “marginalizadas”, cuja experiência e tradição são demasiado estranhas para serem compreendidas.

Examinar a literatura feminina escrita por mulheres negras requer que as complexidades das escritoras não sejam reduzidas a vulgares estereótipos, que nada têm a ver com as pessoas reais. Creio, inclusivamente, que este raciocínio se aplica a qualquer grupo de mulheres, não só às negras.

As literaturas de todas as mulheres de cor recriam as texturas das nossas vidas, e muitas mulheres brancas estão apostadas em ignorar as diferenças dessas texturas. Enquanto as diferenças forem vistas como sinónimo de inferioridade, aquele que se sente diferente sente-se sempre inferior e culpabiliza-se por isso. Abolir os estereótipos ameaça a complacência daquelas mulheres que vêem a opressão apenas em termos de sexo.