C. G. Jung
Aspectos do Drama Contemporâneo
Petrópolis, Vozes, 1990
Excertos adaptados
Posfácio a “Ensaios sobre a história contemporânea [Zurique, 1946]”
A Alemanha apresentou ao mundo um problema crucial que deve ser observado nos seus diversos ângulos. O aspecto psicológico constitui, na verdade, apenas uma faceta. Enquanto psicólogo, tenho tendência a atribuir-lhe uma grande importância, embora prefira deixar ao leitor a responsabilidade de um julgamento próprio. Interessando-me pela psicologia do inconsciente, pude deparar frequentemente com coisas que, apesar de ainda veladas para a consciência quotidiana, se encontravam embrionariamente prontas para irromper na consciência muito antes de o indivíduo pressentir o que lhe reservava o seu futuro psicológico.
Assim, como tive muitos pacientes alemães, pude tecer uma ideia do que estava em preparação no inconsciente daquela época. Foi por isso que escrevi já em 1918: “Quanto mais se perde a autoridade incondicional da cosmovisão cristã, mais se torna perceptível a libertação da “besta loura” de sua prisão subterrânea e a ameaça de uma explosão cujas consequência serão avassaladoras [C. G. Jung, Sobre o inconsciente].”
Não é preciso um Édipo para adivinhar o significado da “besta loura”. A meu ver, essa “besta loura” não se restringe apenas aos alemães, incluindo igualmente tudo o que existe de primitivo no homem europeu e que, pouco a pouco, começa a predominar com a massificação crescente. Escrevi no mesmo artigo:
Aquela desconfiança do primitivo diante da tribo vizinha, que acreditávamos ter sido superada com as organizações instituídas por toda a terra, também ressurgiu nesta guerra [Primeira Guerra Mundial] numa proporção gigantesca. Contudo, não se trata apenas do incêndio de uma aldeia vizinha, nem tão-pouco de algumas “cabeças cortadas”, mas da devastação de países inteiros e da morte de milhares de pessoas. Não se consegue perceber nada de bom nas nações inimigas e os próprios erros são projectados sobre os outros, aumentando-os de um modo fantástico. Onde estão hoje as cabeças pensantes? Se existem realmente, ninguém as ouve: o que sobretudo vemos é o predomínio de um corre-corre desorientado, a fatalidade de uma violência universal que se apresenta como destino diante do qual o indivíduo já não é capaz de se defender.
E como a nação se reúne em torno de um indivíduo expoente, esse fenómeno de ordem geral atinge igualmente o indivíduo. É também por isso que o indivíduo deve empenhar-se em descobrir a maneira de lidar com o mal. Segundo a nossa atitude racionalista, acreditamos poder alcançar alguma coisa através das organizações, leis, constituições e demais instrumentos bem-intencionados.
Na realidade, porém, uma renovação do espírito das nações só poderá ser alcançada por meio da transformação da compreensão do indivíduo. A renovação tem início no indivíduo. Vários teólogos e filantropos, cheios de bons propósitos, querem minar o princípio do poder, mas nos outros. No entanto, o princípio do poder deve ser minado primeiramente dentro da própria pessoa. Apenas assim essa tentativa pode ser digna de crédito.
Ainda durante a Primeira Guerra Mundial escrevi um artigo inicialmente publicado em língua francesa e só depois publicado na Alemanha com algumas ampliações [C. G. Jung, O eu e o inconsciente]. Tratei, entre outros temas, da psicologia de massas e disse o seguinte:
É um facto digno de nota que a moralidade da sociedade, como conjunto, esteja na razão inversa do seu tamanho; quanto maior for o agregado de indivíduos, tanto maior será a obliteração dos factores individuais e, portanto, da moralidade, uma vez que esta se baseia no sentido moral do indivíduo e na liberdade imprescindível para isso.
Por conseguinte, todo o indivíduo é, inconscientemente, pior em sociedade do que quando actua por si só. O motivo é que a sociedade o arrasta e, na mesma medida, o torna isento da sua responsabilidade individual. A sociedade, acentuando automaticamente as qualidades colectivas dos seus indivíduos representativos, premeia a mediocridade e todo aquele que se dispõe a vegetar num caminho fácil e irresponsável. É inevitável que todo o elemento individual seja encostado à parede. Sem liberdade não pode haver moralidade.
A admiração que sentimos diante das grandes organizações vacila, quando nos inteiramos do outro lado de tais maravilhas: o tremendo acumulo e a intensificação de tudo o que é primitivo no homem, além da inconfessável destruição da sua individualidade, em proveito do monstro disfarçado que é toda a grande organização.
Atentem na crueldade inaudita do nosso mundo dito civilizado; tudo provém do ser humano e do seu estado mental! Observem os meios diabólicos de destruição, descobertos por inofensivos gentlemen, por cidadãos sensatos e respeitados que, em princípio, representam tudo o que almejamos. No entanto, quando tudo voar pelos ares, provocando o inferno da destruição, ninguém se apresentará como responsável.
Embora tudo provenha do homem, parece que as coisas acontecem por si só. Todavia, como todos estão cegamente convencidos de que nada mais são do que o retrato da sua humilde consciência, que cumpre fielmente os seus deveres e luta pelo pão de cada dia, ninguém percebe que essa massa racionalmente organizada, a que se dá o nome de Estado ou Nação, é movida por um poder aparentemente individual e invisível mas terrível, que nada nem ninguém controla.
Esse poder aterrador é, em geral, atribuído ao medo da nação vizinha, que todos supõem possuída por um demónio ou força do mal. Como ninguém é capaz de reconhecer o grau de possessão demoníaca e de inconsciência em que vive, projecta-se o próprio estado interior sobre os seus semelhantes, legitimando, dessa forma, o gás mais venenoso e os maiores canhões.
O pior de tudo é que as pessoas têm toda a razão. Pois todos os que estão à volta, e nós mesmos somos dominados por uma angústia incontrolada e incontrolável. Como se sabe, nos hospícios, os pacientes amedrontados e ansiosos são bem mais perigosos do que os dominados pela ira ou pelo ódio [C. G. Jung, Psicologia e Religião].
Não foi somente em Maio de 1945 que me ocorreu a explicação de uma psicose de massas. Já bem antes havia usado essa expressão e adverti, não só uma mas muitas vezes, para o imenso perigo que representava. Escrevi em 1916, antes da entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra:
Será esta guerra uma guerra económica? Esse é o ponto de vista americano da neutralidade e frieza nos negócios, que passa por cima do sangue, das lágrimas, dos actos infames, dos tormentos, e esquece que esta guerra é, na verdade, um delírio epidémico [Die Psychologie der unbewussten Prozesse [1917, p.93]. Este escrito foi revisto e publicado ulteriormente sob o título: Psicologia do Inconsciente].
E referi mais adiante: Quando a função do irracional passa para o inconsciente, a sua acção torna-se tão devastadora e irresistível como uma doença incurável, cujo foco não pode ser extirpado, porque é invisível. E isso compele o indivíduo ou o povo a viver a irracionalidade. Não só a vivê-la como a exercer todo o seu idealismo, todo o seu engenho para tornar a loucura da irracionalidade tão perfeita quanto possível [Op. cit. p. 116.].
Numa conferência realizada na British Society for Psychical Research, em 1919, afirmei: Se essa animação (do inconsciente colectivo) se deve a uma destruição de todas as esperanças e expectativas, o grande perigo está na possibilidade de o inconsciente vir a ocupar o lugar da realidade consciente. Actualmente podemos perceber algo de semelhante na mentalidade russa e alemã [C. G. Jung, A Energia Psíquica, Petrópolis, Editora Vozes].
Em Novembro de 1932, ano decisivo para o destino da Alemanha, fiz em Viena uma conferência dentro da programação da Kulturbund austríaca, da qual transcrevo algumas passagens:
As gigantescas catástrofes que nos ameaçam não são, de modo algum, acontecimentos elementares de natureza física ou biológica, mas acontecimentos psíquicos. As guerras e revoluções que nos ameaçam com tanta violência nada mais são do que epidemias psíquicas. A todo o momento contamos com a possibilidade de milhares de pessoas se deixarem tomar por um delírio e com isso vivermos mais uma guerra mundial ou uma revolução violenta.
Em lugar dos animais ferozes, dos terramotos e grandes inundações, o homem hoje vê-se exposto às suas forças psíquicas elementares. O psíquico é um poder imensamente maior do que todas as demais forças terrestres. O iluminismo, ao expulsar os deuses da natureza e das instituições humanas, não atentou àquele Deus do Terror que habita em toda a alma humana. Ante o imenso poder do psíquico, é sempre oportuno o poder de Deus [C. G. Jung, Da Formação da Personalidade].