Sombras financeiras: vergonha, classe e o mito da igualdade

Connie Zweig and Steve Wolf
Romancing the Shadow
New York, The Ballantine Publishing Group, 1997
Excertos adaptados

Sombras financeiras: vergonha, classe e o mito da igualdade

Mark Twain disse uma vez: A amizade pode durar uma vida inteira se não lhe pedirmos que empreste dinheiro. Pedir dinheiro emprestado é, sem dúvida, algo que evoca sentimentos de vergonha, dependência e obrigação. Emprestar dinheiro evoca sentimentos de superioridade. Talvez o peso do dinheiro na amizade explique por que razão há amigos que são tão cuidadosos a separar a amizade dos aspectos financeiros da relação, a dividir as contas escrupulosamente. Se a questão do dinheiro não for encarada abertamente, mais cedo ou mais tarde tornar-se-á uma questão da sombra.

Ken, um rico proprietário imobiliário, disse a Mel que não emprestava dinheiro a ninguém, mas que, para ele, abriria uma excepção, o que fez Mel sentir-se extremamente valorizado como amigo. Há muitos segredos sobre dinheiro, mesmo entre os amigos mais chegados. Expor a nossa situação financeira é expormo-nos totalmente. Stephen disse que tinha ganho muito dinheiro num negócio mas que não queria que os amigos soubessem, porque tinham menos dinheiro do que ele. Tinha receio de que ficassem invejosos e de ter de lidar com sentimentos de culpa.

A inveja entre amigos pode trazer sentimentos dolorosos de inferioridade e inadequação. A inveja financeira pode esconder questões mais profundas. Vicky crescera numa parte pobre de Atlanta. Lembrava-se de sentir acabrunhada pelo cabelo branco da mãe, pela loja de penhores do pai, e pela sua casa decrépita. Vicky tinha sido a primeira pessoa da família a frequentar a faculdade. Sonhava com uma vida profissional e uma boa casa. Mas os seus sonhos não se realizaram.

Aos cinquenta anos, Vicky tinha tentado várias carreiras mas desistido de todas. Casou-se com Earl, um artista dotado que não podia trabalhar por razões de saúde. Viviam num bairro pobre, onde se ouviam tiroteios à noite, numa casa decrépita que Vicky tinha vergonha de mostrar às amigas, todas mais ricas e mais bem sucedidas. “Sinto-me como se vivesse num sistema de castas e não pudesse alterar o meu destino.”

Conta-nos que tinha estado com amigas que usavam anéis com diamantes. “Ao contrário de mim, foram abençoadas com um berço de ouro. Sinto-me como se tivesse feito algo de errado e, por isso, este é o meu destino.” Vicky inveja Denise em particular, que parece ter uma vida desafogada. “Ganha bem e pode ter uma casa na montanha e um carro novo. Tem uma família muito unida na cidade, o que lhe dá imensa segurança.” Mas, debaixo da inveja de Vicky está um juiz: “Não tem nenhum tipo de preocupação espiritual. Limita-se a andar de nariz empinado, sem ter nada por que lutar.”

Denise sente a inveja da amiga. Sente que a sua complexidade e as suas lutas são invisíveis, que Vicky a reduziu a um estereótipo. Quando tenta falar-lhe da sua solidão de mulher solteira ou dos problemas da família, Vicky desinteressa-se. Não sente empatia porque acha que Denise não sofre. Mas Denise também tem problemas de projecção. Acha a amiga sem tacto, grosseira e hedonista. Preocupa-se com o bem-estar dela mas nunca a visitou, por causa do barulho e do tipo de vizinhança.

Uma noite, a sombra irrompeu. Num jantar informal, Vicky chegou duas horas atrasada. Denise olhou-a com desdém e Vicky riscou-a da sua vida nesse mesmo momento. Vicky chegava sempre atrasada, o que ofendia Denise, que sentia isso como falta de consideração para consigo. Mas este foi apenas o último de uma série de episódios que levaram as duas amigas a uma crise de compromisso que não souberam ultrapassar.

Um ano mais tarde, encorajadas por amigas mútuas, voltaram a falar-se. Vicky disse a Denise que sempre achara que ela a considerava desajeitada, descontrolada e pouco sofisticada. Assim, sempre se sentira espiritualmente superior à amiga. Denise disse-lhe que achara sempre que Vicky a via como mimada e espiritualmente à deriva. Secretamente, por isso, sempre se julgara intelectualmente superior a Vicky.

Ao descobrir como se tinham magoado mutuamente e ao partilharem essa dor e a sua honestidade, puderam reatar a sua relação. O dinheiro, que parecia ser a principal questão deixada na sombra era, afinal, uma camuflagem para questões mais profundas.