Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra

Jean Monbourquette
Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi
Québec, Novalis, 2001
Excertos adaptados

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Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra


 

Identificar-se com o ser ideal, excluindo a sombra

Que acontece a quem se identifica exclusivamente com o seu ser ideal? Uma tal identificação leva não só à negação das pulsões da sombra, mas também à negação da própria existência da sombra. Além disso, a pessoa que o fizer tem de obedecer rigorosamente aos códigos do seu meio social. Levada pelo medo de ser excluída, vai criar uma ansiedade incontrolável à menor infracção das regras que protagonizar. Muito atenta às expectativas, reais ou imaginárias, do seu meio e extremamente preocupada em cuidar da sua imagem perante a sociedade, acabará por renunciar a satisfazer as suas aspirações mais autênticas.

 

Identificar-se só com a sombra

Uma outra forma de actuar consiste em privilegiar o lado sombrio de si próprio e obedecer indiscriminadamente às pulsões. Quem opta por esta solução, fica muito rapidamente prisioneiro da sombra. Adopta toda a espécie de comportamentos reprováveis: comportamentos desviantes, instintivos, primitivos, infantis e regressivos. A vida em sociedade tornar-se-ia impossível para essa pessoa, porque daria livre curso às suas tendências sádicas, invejosas, ciumentas, sexuais e outras. Em resumo, quem aceitar tornar-se a sua própria sombra, condena-se a viver subjugado pelos seus desejos.

O romance de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, ilustra bem o perigo da identificação total com o lado sombrio. John Sanford, analista junguiano, fez uma análise penetrante desta história na qual o herói, o Dr. Henry Jekyll, sucumbe ao fascínio progressivo exercido pela sua sombra. Ao beber uma poção que ele mesmo preparara, o generoso médico transforma-se, pouco a pouco, numa pessoa sórdida, Edward Hyde.

Depois das primeiras tentativas de identificação com a sombra, isto é, com o seu alter-ego que é Hyde, Jekyll dá-se conta do perigo que corre e apressa-se a justificar a sua história de desdobramento, que pode, supõe ele, conduzi-lo à degradação moral. O médico tenta convencer-se de que está a fazer esta experiência em nome da ciência e, para tranquilizar a consciência, qualifica de “inofensiva” tal transformação. Chega mesmo ao ponto de ver nela apenas uma diversão. Na verdade, o perigoso convívio com o seu “duplo”, Hyde, proporciona-lhe um certo prazer, que pode, pensa, levá-lo a fazer jogadas sem consequências.

John Sanford, no seu comentário da obra, prova que o erro fundamental do Dr. Jekyll foi aceitar tornar-se a sua sombra. Longe de procurar uma tensão fecunda com o seu “duplo”, Jekyll recusa o desconforto dessa situação e prefere perder-se em Edward Hyde (*). Não será que o libertino faz o mesmo quando diz que a melhor forma de se libertar de uma tentação é ceder-lhe?

À medida que Jekyll se compraz cada vez mais em tornar-se Hyde, aquele cede progressivamente às exigências desta personagem tenebrosa. As suas frequentes decisões de parar com esta situação – até chega a retomar a prática religiosa – não são capazes de o libertar do poder de Hyde. Atinge então um ponto de não retorno em que todos os princípios morais e o domínio de si lhe escapam por completo. Fica à mercê de forças diabólicas contra as quais já nada pode. Impotente para resistir às suas pulsões de sadismo, chega a matar o colega, o bom Dr Carow.

A aventura do Dr. Jekyll ilustra bem o fracasso a que nos conduz a capitulação perante as pulsões da sombra. Esta atitude, longe de resolver a tensão moral, não ajuda em nada à reintegração da sombra.

 

Identificar-se ora com o ser, ora com a sombra

Neste caso, o indivíduo leva normalmente uma vida moral exemplar. A sua reputação de cônjuge, de pai e de cidadão modelo faz inveja a todos. Depois surgem momentos de fadiga e de depressão. As pessoas tomam então liberdades em relação aos seus princípios morais. Estes desvios temporários do comportamento assumem formas variadas, com graus de gravidade muito diversos: extravagâncias amorosas, aventuras sexuais, acessos de cólera, excesso de bebida, pequenas patifarias, calúnias, maledicências, etc.

Tais pessoas, seduzidas momentaneamente pela tentação, voltam a cair em si, arrependem-se das suas faltas, e tomam boas resoluções até reincidirem. Estão, com efeito, prisioneiras de um ciclo infernal. Recordo o caso de alguém, reputado pela sua incansável dedicação. Após períodos de trabalho intenso, deixava-se invadir por uma das suas sub-personalidades sombrias, que o levava aos maus caminhos da desordem sexual. Durante vários anos conheceu períodos de generosidade alternando com períodos de desvios sexuais.

Divididas entre as aspirações do ser e os impulsos da sombra, as pessoas correm o risco de naufragar ciclicamente num marasmo psicológico e espiritual e de ficarem prisioneiras de um círculo vicioso.

A denúncia das projecções doentias

O próprio Jesus Cristo denunciou aquilo que podemos considerar hoje o carácter nocivo das projecções da sombra, já que abominava os juízos malévolos contra o próximo.

A tal respeito fez afirmações que continuam actuais: Porque assinalas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho? Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, espera. Eu tiro o cisco que tens no olho’, se tu não vês a trave que tens no teu? Homem de juízo perverso, tira primeiro a trave do teu olho! E então verás melhor para tirares o cisco que está no olho do teu irmão.(**)

Jesus exprime assim, à sua maneira, o que procurávamos demonstrar neste capítulo: antes de julgarmos os outros, pensando que estamos a ajudá-los, melhor seria resolvermos trabalhar sobre nós mesmos e aprendermos a recuperar as projecções da nossa sombra.

Cristo denuncia as projecções malévolas porque conhece os seus efeitos sobre aqueles a quem se dirigem. Fá-lo, nomeadamente, aquando do episódio da mulher adúltera maltratada por um grupo de homens. Uma mulher acabava de ser apanhada em flagrante delito de adultério. Os homens que a levaram junto do Mestre estavam a fazer dela “bode expiatório” das suas próprias faltas sexuais. Com uma frase lapidar, Jesus inverte a situação; interpela-os, fá-los tomar consciência da projecção e convida-os a assumir a responsabilidade das próprias faltas: Aquele dentre vós que nunca pecou atire a primeira pedra.(***)

Mas a denúncia das projecções maldosas lançadas sobre os outros não se faz sem perigo, porque pode atrair sobre o denunciante a vingança das pessoas assim postas em causa. O destino que Jesus teve de sofrer ilustra-o bem.

(*) C. Zweig, J. Abrams (eds.), Meeting the Shadow: The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature, Los Angeles, Jeremy P. Tarcher, 1991.

(**) Lucas 6, 41 – 43.

(***) João 8, 7.