Connie Zweig and Steve Wolf
Romancing the Shadow
New York, The Ballantine Publishing Group, 1997
Excertos adaptados
Sombras de poder: superioridade e inferioridade
Uma amizade profunda é um terreno fértil para se experimentar o poder autêntico – ou seja, o poder que emana do Si Mesmo. Mas se usarmos o poder inautêntico, que está ligado ao ego, para nos relacionarmos com os outros, acabamos por criar lutas de poder e sentimentos de superioridade e inferioridade, que não conduzem à segurança mas à competição, à inveja e ao ciúme.
Lloyd tenta levar a melhor sobre o seu amigo Jay, que é advogado. “Tento demonstrar o meu ponto de vista, mas não me sinto escutado. Sinto-me impotente, como se nada do que eu pudesse dizer fizesse a mínima diferença. Jay diz-me que não sou lógico ou que não entendo os factos. Fico sem fala e já não sei se as minhas opiniões são válidas ou não. Acho até que já não tenho direito a opiniões.”
Este tipo de situação prolongou-se por cinco anos. Uma noite, ao jantarem com as respectivas esposas, Lloyd começou a dirigir uns olhares furtivos à mulher de Jay, que lhe correspondeu. Lloyd sentiu-se logo confiante, certo de que poderia atrair a mulher do amigo para uma relação casual. Chocado com o seu comportamento, contou-o ao terapeuta e deu-se conta de que havia uma sombra de poder a operar dentro dele, tentando dar-lhe sentimentos de superioridade no contexto de uma relação em que se sentia inferior.
Algumas pessoas mantêm-se numa atitude de superioridade, de elitismo farisaico, que as coloca cima dos outros. Quando encontram pessoas com pontos de vista diferentes e que não conseguem tolerar, riscam-nas do seu mundo.
Roz tinha trinta e cinco anos e trabalhava numa companhia para ajudar as pessoas a lidarem com a diferença. Sentia que os seus amigos deviam partilhar a sua convicção de adoptar atitudes e pensamentos politicamente correctos. Quando foi ver um filme sobre questões afro-americanas com um amigo branco, ficou chocada quando este comentou: “Os negros devem esquecer a sua revolta e perdoar. Nunca fui dono de escravos, por isso não me culpem pelos problemas de hoje.”
Roz ficou furiosa: “Se uma pessoa não adoptar um ponto de vista correcto em relação às questões, não podemos ser amigos. Não tenho paciência para lhes ensinar como se devem sentir e comportar. Nem estou para me preocupar. Nove em cada dez vezes, esqueço-as. Não podemos ser amigos de todos.”
Ironicamente, Roz está a banir da sua vida aquilo que ensina os outros a fazer na empresa. A sua adopção de pontos de vista politicamente correctos impede-a de aceitar pensamentos e sentimentos-sombra, o que a leva a criar uma sombra ainda maior e a ter dificuldade em lidar com questões mais complexas, profundas e ambíguas.
As pessoas que não se ajustam ao ideal dela são etiquetadas de inferiores. Esta polarização a preto e branco oferece-lhe a desculpa de que necessita para acabar com as amizades. Se, em vez de o tentar mudar, Roz visse o seu amigo como uma projecção de si mesma e visse na sua reacção exagerada a mensagem de uma personagem rígida que habita nela, veria na sua reacção face a ele um espelho da reacção dele face aos negros. Ambos tentam eliminar alguém.
Ao não querer alinhar com os pontos de vista dominantes que abafam a expressão da individualidade, Roz faz o que eles fazem na sua vida pessoal. Decidiu excomungar os que são diferentes dela. Valoriza mais o facto de ter razão do que o de enfrentar os seus problemas com os compromissos que pretende assumir.
Esta questão não é fácil: fazer trabalho com a sombra pessoal acerca de questões colectivas é necessário, mas não resolve os problemas sociais e políticos. Às vezes precisamos de conservar a raiva e a projecção para podermos realizar algum tipo de trabalho relativo à sociedade. A terapia não pode ser um local onde as pessoas apenas se confrontam com questões pessoais, sem ter em conta o contexto económico e político em que nos movemos. Se reduzirmos tudo ao domínio pessoal, a terapia torna-se uma força conservadora em vez de uma força que contribua para a mudança.
Como podemos acolher pessoas cujos pontos de vista diferem dos nossos? Quanta diferença podemos aceitar? Quanta compaixão podemos incluir na nossa vida?