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Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade

Jacques Salomé
Le Courage d’être Soi
Gordes, Les Éditions du Relié, 1999
Excertos adaptados

Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade

Todos nós possuímos um potencial psicológico e relacional estruturado à volta de duas espécies de componentes:

* Componentes positivas que actuarão como verdadeiros motores ou estímulos que podem contribuir para iluminar a nossa vida.
* Componentes negativas ou marginais que, pelo contrário, podem agir como travões, limitações ou constrangimentos susceptíveis de agravar, ensombrar e dificultar a nossa existência.

O conjunto das componentes positivas e negativas participa de forma activa na estruturação da nossa personalidade profunda e das nossas relações com o mundo e com os outros. Podemos considerar que as componentes negativas, que alimentam de algum modo a parte sombria e a dimensão conflituante do nosso potencial relacional, se organizam em nós à volta de uma constelação de características ou de traços dominantes.

Funcionam no máximo quando são alimentadas, solicitadas, reactivadas, estimuladas ou exacerbadas pela atitude ou pela componente dominante do outro. Funcionam no mínimo quando são minoradas, atenuadas ou mantidas em surdina pela complementaridade da dominante do outro. Isto é, dependem da importância e da atenção que se atribui ao que o outro estimula ou inibe em nós, nos múltiplos encontros ou relações significativas ao longo da vida.

Quando uma dominante é levada ao excesso, pode provocar comportamentos excessivos, até mesmo patológicos, que correm o risco de se inscrever de forma duradoura em tendências crónicas ou na formação do carácter.

Compete a cada pessoa desenvolver a responsabilidade de tomar consciência da sua componente dominante… electiva ou preferida e, além desta lucidez em relação a si, permanecer igualmente vigilante e atenta para não se deixar arrastar pelas reacções do interlocutor com quem se relaciona ou inicia um novo laço.

Apresentação das componentes negativas da nossa personalidade

A lista das componentes aqui seleccionadas não é exaustiva e emprega alguns termos das categorias existentes. Distinguem-se neste domínio dois grandes tipos de classificação. Umas são sobretudo descritivas, estabelecidas a partir de um inventário da constelação das características de longo curso e dos traços de personalidade mais notórios numa dada pessoa. Outras são estruturais e baseiam-se na análise dinâmica da ossatura mais profunda da personalidade.

Apoiam-se particularmente em três critérios principais, que são a natureza das angústias e dos medos habituais dessa pessoa, os meios ou os mecanismos mais correntes que ela desencadeia para se defender ou se proteger (natureza, variedade, flexibilidade ou rigidez) e, finalmente, o modo como se relaciona com os outros e o mundo que a rodeia. São estas modalidades relacionais que aqui serão privilegiadas e tidas como prioritárias.

A componente sádica ou masoquista

O motor principal desta componente reside na busca do prazer em fazer mal ou sofrer, do gozo de se desqualificar, de se negar ou de sabotar os sucessos possíveis. O sofrimento é por vezes investido como fonte de prazer, numa última tentativa de manter o controle e o domínio de uma situação em que as relações de força não nos são favoráveis.

O masoquista procura em tudo o fracasso. Lamenta-se de só ter desgraças na vida mas, ao mesmo tempo, encontra sempre desculpas ou boas razões para as justificar. Raramente sabe aproveitar os momentos de prazer ou de êxito. Aceita realizar, em benefício dos outros, acções que exigem de si um sacrifício excessivo. Rejeita as ofertas de ajuda ou de conselhos. Ao não acreditar em si, desqualifica implicitamente aquele que o desejaria ajudar, dando-lhe a entender que ele tem pouco valor para ser prestável ou para se interessar por alguém que não vale nada.

Não sabe receber um presente ou um cumprimento. Isto é frequente noutras componentes, mas ele, quando responde: “Não valia a pena”, pensa de facto assim, sem falsa modéstia, humilha-se e sofre com isso. Uma prova: se lhe oferecer um presente verdadeiramente lindo e caro, poderá constatar mais tarde que, como se fosse por acaso, há-de estragar-se ou partir-se.

A dominante construir-se-á em redor de uma estruturação sadomasoquista, quer erotisando o sofrimento recebido, quer sentindo prazer com o sofrimento provocado. A evolução patológica desta dominante levará a perversões tais como: humilhações, tendência para impedir a autonomia do próximo, comportamentos auto destrutivos e destrutivos.

A componente histeróide

Caracteriza-se por um grande investimento no corpo em representação, com manifestações gestuais e expressões corporais excessivas, exageradas, dramatizadas, teatrais, descabidas ou desproporcionadas em relação ao elemento desencadeador ou à situação vivida; por um modo geral de se comportar à base de excitabilidade, de reacção emocional pouco autêntica e despertada por solicitações ou estímulos mínimos. A tolerância às frustrações ou à demora da gratificação é muito fraca. A dominante será uma base relacional de tipo histérico. A expressão patológica desembocará em crises histéricas excessivas, descontroladas.

A componente paranóide

Apoia-se num estado recorrente de desconfiança, num sentimento de perseguição, de rejeição, de exclusão, de não-amor ou de negação, tudo isto baseado numa luta profunda e constante contra qualquer forma de dependência relacional. Estes ressentimentos passarão depois a situações extremadas pelo sentimento de ameaça. A forma paranóide caracteriza- se pela desconfiança, com atitudes persecutórias em relação aos outros, por acusações, pela tendência para pôr tudo em causa, levantar questões, recorrer a procedimentos judiciais, numa atitude permanente de dúvida em relação ao resto do mundo.

A vertente paranóica revela-se na luta contra o risco de ataque ou de intromissão do meio dominante; numa atitude marcada por uma grande prudência, na tendência para atribuir ao outro intenções de prejudicar ou de enganar, no tom erudito, no recurso a evidências e a certezas. A desconfiança dirige-se mais às pessoas do que às situações. A dominante paranóide desenvolve-se sob diversas formas que vão do controle à perseguição e à ameaça, e que podem mesmo passar ao acto. Certos tipos de ciúme agudo e de tendência possessiva podem alternar com fases de fechamento em si próprio de forma defensivo-agressiva.

A forma patológica será a paranóia, que dá a quem dela sofre o sentimento agudo, avassalador e permanente de que o outro é um inimigo potencial, um ser perigoso ou nocivo, uma ameaça. Isto pode levar a fantasmas e passagens ao acto, visando a eliminação e a destruição do outro.

A componente fóbica

É sobretudo caracterizada pelo medo persistente de uma situação ou de um dado objecto, pela procura de segurança, pelo recurso à fuga das situações ou daquilo que possa desencadear angústia ou reactivar um sentimento de insegurança. Fora destas situações ou destes casos bem delimitados, a pessoa não se mostra angustiada nem dá conta disso. O perigo está na generalização das situações desencadeadoras de ansiedade.

A componente fóbica pode trazer consigo uma prolongada redução do potencial da acção e evoluir para uma fobia social. Na sua forma dominante, pode desencadear inibições, bloqueios relacionais e paralisias diversas que trazem consigo limitações importantes e invalidantes no dia a dia (dificuldade de se deslocar sozinho, impossibilidade de fazer compras em certos lugares como as grandes superfícies ou, ao invés, nos pequenos comércios, medo de ser tomado de pânico no cabeleireiro, medo de se pôr a tremer ao segurar um copo ou a chávena do café…).

Continuação: A componente obsessiva

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