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A criação do inimigo: nós e eles no corpo político

Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)
Ao Encontro da Sombra
S. Paulo, Cultrix, 1998
Excertos adaptados

A criação do inimigo: nós e eles no corpo político

Por mais repulsiva que possa parecer a ideia, precisamos de inimigos. A vida humana parece florescer com eles, parece depender deles.

A criação de um inimigo parece servir um propósito vital: podemos, de um modo inconsciente e indolor, atribuir aos nossos inimigos aquelas características que não conseguimos tolerar em nós mesmos. Quando observada através das lentes psicológicas, a criação do inimigo é uma transposição da nossa sombra sobre pessoas que, por motivos em geral bastante complexos, se adaptam à imagem que fazemos do ser inferior. Basta-nos pensar nas pessoas a quem julgamos, por quem sentimos aversão ou contra quem mantemos preconceitos secretos, para que nos descubramos nas garras da nossa natureza mais escura.

Em termos de país, de raça, de religião ou de qualquer outra identidade colectiva, podemos observar que a criação do inimigo é realizada em proporções míticas, dramáticas e muitas vezes trágicas. Guerras, cruzadas e perseguições constituem o terrível património dessa forma da sombra humana, que é, até certo ponto, um legado da nossa herança tribal instintiva.

As maiores crueldades na história da humanidade foram praticadas em nome de causas virtuosas, quando as sombras de nações inteiras se projectaram sobre a face de um inimigo; e, assim, um grupo “diferente” pode ser transformado em inimigo, em bode expiatório ou em infiel.

A função última de guerrear um inimigo é a redenção. De acordo com o filósofo social Ernest Becker: Se existe uma coisa que as trágicas guerras da nossa época nos ensinaram é que o inimigo tem um papel ritual a desempenhar e, por meio dele, o mal é redimido. Todas as guerras, portanto, são travadas como guerras santas num duplo sentido – como uma revelação do destino, uma prova do favor divino e como uma maneira de eliminar o mal do mundo.

A nossa época viu um incrível desperdício de recursos humanos e materiais, dissipados para manter o jogo da “criação do inimigo” na Guerra Fria. Já comprometemos o futuro dos nossos filhos com armamentos e tecnologias bélicas. Esperamos poder tirar partido destas lições e assim desmontar esta engrenagem obsoleta.

O mundo parece estar à espera de uma nova era de cooperação construtiva, de um novo milénio no qual usaremos, para resolver problemas, a energia que hoje desperdiçamos ao criar o inimigo. O novo inimigo a ser combatido não exige projecção; temos acesso a ele, reconhecendo simplesmente as nossas próprias sombras colectivas e assumindo a nossa responsabilidade, pois ele agora tornou-se manifesto sob a forma do desastre ecológico, do efeito de estufa, da extinção de incontáveis espécies e da privação económica e desnutrição de muitos povos.

PARA CRIAR UM INIMIGO

Sam Keen

Comece com uma tela em branco
e delineie, num contorno geral, as formas
de homens, mulheres e crianças.
Mergulhe fundo no poço inconsciente
da sua própria sombra reprimida
com um pincel largo e
salpique os estranhos com o matiz sinistro da sombra.

Trace sobre o rosto do inimigo
a avidez, o ódio e a negligência que você não ousa
assumir como seus.

Obscureça a doce individualidade de cada rosto.

Apague todos os traços de mil amores, esperanças
e medos que brincam pelo caleidoscópio de
cada coração finito.

Retorça o sorriso até que ele forme um arco
descendente de crueldade.

Arranque a carne dos ossos até que só reste
o esqueleto abstracto da morte.

Exagere as feições para que o homem se metamorfoseie
em besta, verme, insecto.

Preencha o fundo com figuras malignas
de antigos sonhos – diabos,
demónios e guerreiros do mal.

Quando a sua estátua do inimigo estiver completa
você será capaz de matar sem sentir culpa,
trucidar sem sentir vergonha.

A coisa que você destrói tornou-se apenas
um inimigo de Deus, um estorvo
à sagrada dialéctica da História.

Continuação: O Criador de Inimigos

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