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	<title>A sombra</title>
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		<title>A sombra</title>
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		<title>Câmara Escura &#8211; Miguel Torga</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Nov 2007 09:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Miguel Torga Poesia Completa Lisboa, Pub. Dom Quixote, 2000<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=54&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Miguel Torga<br />
<em>Poesia Completa</em><br />
Lisboa, Pub. Dom Quixote, 2000</p>
<p align="center"><img src="http://oladosombra.files.wordpress.com/2007/11/miguel-torga.jpg?w=500" alt="miguel-torga.jpg" /></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/oladosombra.wordpress.com/54/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/oladosombra.wordpress.com/54/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oladosombra.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oladosombra.wordpress.com/54/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=54&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 21:35:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
				<category><![CDATA[análise]]></category>
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		<description><![CDATA[Jacques Salomé Le Courage d’être Soi Gordes, Les Éditions du Relié, 1999 Excertos adaptados Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade Todos nós possuímos um potencial psicológico e relacional estruturado à volta de duas espécies de componentes: * Componentes positivas que actuarão como verdadeiros motores ou estímulos que podem contribuir para iluminar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=53&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jacques Salomé<br />
<em>Le Courage d’être Soi </em><br />
Gordes, Les Éditions du Relié, 1999<br />
Excertos adaptados</p>
<p align="center"><strong>Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade</strong></p>
<p align="justify">Todos nós possuímos um potencial psicológico e relacional estruturado à volta de duas espécies de componentes:</p>
<p align="justify">* Componentes positivas que actuarão como verdadeiros motores ou estímulos que podem contribuir para iluminar a nossa vida.<br />
* Componentes negativas ou marginais que, pelo contrário, podem agir como travões, limitações ou constrangimentos susceptíveis de agravar, ensombrar e dificultar a nossa existência.</p>
<p align="justify">O conjunto das componentes positivas e negativas participa de forma activa na estruturação da nossa personalidade profunda e das nossas relações com o mundo e com os outros. Podemos considerar que as componentes negativas, que alimentam de algum modo a parte sombria e a dimensão conflituante do nosso potencial relacional, se organizam em nós à volta de uma constelação de características ou de traços dominantes.</p>
<p align="justify">Funcionam no máximo quando são alimentadas, solicitadas, reactivadas, estimuladas ou exacerbadas pela atitude ou pela componente dominante do outro. Funcionam no mínimo quando são minoradas, atenuadas ou mantidas em surdina pela complementaridade da dominante do outro. Isto é, dependem da importância e da atenção que se atribui ao que o outro estimula ou inibe em nós, nos múltiplos encontros ou relações significativas ao longo da vida.</p>
<p align="justify">Quando uma dominante é levada ao excesso, pode provocar comportamentos excessivos, até mesmo patológicos, que correm o risco de se inscrever de forma duradoura em tendências crónicas ou na formação do carácter.</p>
<p align="justify">Compete a cada pessoa desenvolver a responsabilidade de tomar consciência da sua componente dominante&#8230; electiva ou preferida e, além desta lucidez em relação a si, permanecer igualmente vigilante e atenta para não se deixar arrastar pelas reacções do interlocutor com quem se relaciona ou inicia um novo laço.</p>
<p align="center"><strong>Apresentação das componentes negativas da nossa personalidade</strong></p>
<p align="justify">A lista das componentes aqui seleccionadas não é exaustiva e emprega alguns termos das categorias existentes. Distinguem-se neste domínio dois grandes tipos de classificação. Umas são sobretudo descritivas, estabelecidas a partir de um inventário da constelação das características de longo curso e dos traços de personalidade mais notórios numa dada pessoa. Outras são estruturais e baseiam-se na análise dinâmica da ossatura mais profunda da personalidade.</p>
<p align="justify">Apoiam-se particularmente em três critérios principais, que são a natureza das angústias e dos medos habituais dessa pessoa, os meios ou os mecanismos mais correntes que ela desencadeia para se defender ou se proteger (natureza, variedade, flexibilidade ou rigidez) e, finalmente, o modo como se relaciona com os outros e o mundo que a rodeia. São estas modalidades relacionais que aqui serão privilegiadas e tidas como prioritárias.</p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:'Times New Roman';">• </span><strong><em>A componente sádica ou masoquista</em></strong></p>
<p align="justify">O motor principal desta componente reside na busca do prazer em fazer mal ou sofrer, do gozo de se desqualificar, de se negar ou de sabotar os sucessos possíveis. O sofrimento é por vezes investido como fonte de prazer, numa última tentativa de manter o controle e o domínio de uma situação em que as relações de força não nos são favoráveis.</p>
<p align="justify">O masoquista procura em tudo o fracasso. Lamenta-se de só ter desgraças na vida mas, ao mesmo tempo, encontra sempre desculpas ou boas razões para as justificar. Raramente sabe aproveitar os momentos de prazer ou de êxito. Aceita realizar, em benefício dos outros, acções que exigem de si um sacrifício excessivo. Rejeita as ofertas de ajuda ou de conselhos. Ao não acreditar em si, desqualifica implicitamente aquele que o desejaria ajudar, dando-lhe a entender que ele tem pouco valor para ser prestável ou para se interessar por alguém que não vale nada.</p>
<p align="justify">Não sabe receber um presente ou um cumprimento. Isto é frequente noutras componentes, mas ele, quando responde: “Não valia a pena”, pensa de facto assim, sem falsa modéstia, humilha-se e sofre com isso. Uma prova: se lhe oferecer um presente verdadeiramente lindo e caro, poderá constatar mais tarde que, como se fosse por acaso, há-de estragar-se ou partir-se.</p>
<p align="justify">A dominante construir-se-á em redor de uma estruturação sadomasoquista, quer erotisando o sofrimento recebido, quer sentindo prazer com o sofrimento provocado. A evolução patológica desta dominante levará a perversões tais como: humilhações, tendência para impedir a autonomia do próximo, comportamentos auto destrutivos e destrutivos.</p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:'Times New Roman';">• </span><strong><em>A componente histeróide</em></strong></p>
<p align="justify">Caracteriza-se por um grande investimento no corpo em representação, com manifestações gestuais e expressões corporais excessivas, exageradas, dramatizadas, teatrais, descabidas ou desproporcionadas em relação ao elemento desencadeador ou à situação vivida; por um modo geral de se comportar à base de excitabilidade, de reacção emocional pouco autêntica e despertada por solicitações ou estímulos mínimos. A tolerância às frustrações ou à demora da gratificação é muito fraca. A dominante será uma base relacional de tipo histérico. A expressão patológica desembocará em crises histéricas excessivas, descontroladas.</p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:'Times New Roman';">• </span><strong><em>A componente paranóide</em></strong></p>
<p align="justify">Apoia-se num estado recorrente de desconfiança, num sentimento de perseguição, de rejeição, de exclusão, de não-amor ou de negação, tudo isto baseado numa luta profunda e constante contra qualquer forma de dependência relacional. Estes ressentimentos passarão depois a situações extremadas pelo sentimento de ameaça. A forma paranóide caracteriza- se pela desconfiança, com atitudes persecutórias em relação aos outros, por acusações, pela tendência para pôr tudo em causa, levantar questões, recorrer a procedimentos judiciais, numa atitude permanente de dúvida em relação ao resto do mundo.</p>
<p align="justify">A vertente paranóica revela-se na luta contra o risco de ataque ou de intromissão do meio dominante; numa atitude marcada por uma grande prudência, na tendência para atribuir ao outro intenções de prejudicar ou de enganar, no tom erudito, no recurso a evidências e a certezas. A desconfiança dirige-se mais às pessoas do que às situações. A dominante paranóide desenvolve-se sob diversas formas que vão do controle à perseguição e à ameaça, e que podem mesmo passar ao acto. Certos tipos de ciúme agudo e de tendência possessiva podem alternar com fases de fechamento em si próprio de forma defensivo-agressiva.</p>
<p align="justify">A forma patológica será a paranóia, que dá a quem dela sofre o sentimento agudo, avassalador e permanente de que o outro é um inimigo potencial, um ser perigoso ou nocivo, uma ameaça. Isto pode levar a fantasmas e passagens ao acto, visando a eliminação e a destruição do outro.</p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:'Times New Roman';">• </span><strong><em>A componente fóbica</em></strong></p>
<p align="justify">É sobretudo caracterizada pelo medo persistente de uma situação ou de um dado objecto, pela procura de segurança, pelo recurso à fuga das situações ou daquilo que possa desencadear angústia ou reactivar um sentimento de insegurança. Fora destas situações ou destes casos bem delimitados, a pessoa não se mostra angustiada nem dá conta disso. O perigo está na generalização das situações desencadeadoras de ansiedade.</p>
<p align="justify">A componente fóbica pode trazer consigo uma prolongada redução do potencial da acção e evoluir para uma fobia social. Na sua forma dominante, pode desencadear inibições, bloqueios relacionais e paralisias diversas que trazem consigo limitações importantes e invalidantes no dia a dia (dificuldade de se deslocar sozinho, impossibilidade de fazer compras em certos lugares como as grandes superfícies ou, ao invés, nos pequenos comércios, medo de ser tomado de pânico no cabeleireiro, medo de se pôr a tremer ao segurar um copo ou a chávena do café&#8230;).</p>
<p>Continuação: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/apresentacao-das-componentes-negativas-da-nossa-personalidade/">A componente obsessiva</a></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/oladosombra.wordpress.com/53/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/oladosombra.wordpress.com/53/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oladosombra.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oladosombra.wordpress.com/53/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=53&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Apresentação das componentes negativas da nossa personalidade &#8211; cont.</title>
		<link>http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/apresentacao-das-componentes-negativas-da-nossa-personalidade/</link>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 21:25:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Jacques Salomé Le Courage d’être Soi Gordes, Les Éditions du Relié, 1999 Excertos adaptados Anterior:Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade A componente obsessiva Compõe-se de atitudes de controlo, de meticulosidade, com uma compulsividade para a arrumação, para a verificação, com uma organização meticulosa ou rigorosa da vida, sem fantasia. Suscita rigidez [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=52&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jacques Salomé<br />
<em>Le Courage d’être Soi </em><br />
Gordes, Les Éditions du Relié, 1999<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p>Anterior:<a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/zonas-de-sombra-ou-zonas-de-conflito-na-nossa-personalidade/">Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade</a></p>
<p><em><strong>A componente obsessiva</strong></em></p>
<p align="justify">Compõe-se de atitudes de controlo, de meticulosidade, com uma compulsividade para a arrumação, para a verificação, com uma organização meticulosa ou rigorosa da vida, sem fantasia. Suscita rigidez e comportamentos repetitivos muito desgastantes (perdas de tempo consideráveis, por exemplo). É acompanhada muitas vezes por uma inquietação latente face ao imprevisível e a toda a forma de “acaso”, que impede de viver o presente e de se abandonar à riqueza do instante, com mecanismos de defesa baseados na racionalização, na intelectualização.</p>
<p align="justify">A dominante obsessiva traduz-se numa necessidade de classificar, arrumar, controlar, ritualisar ao extremo, a fim de neutralizar as coisas, antecipar o futuro, esquecendo-se de viver o presente, com grandes reservas e dificuldade de dar e de receber. A forma patológica revela-se na avalanche de dúvidas, compulsões, medos irracionais que levam ao isolamento, a fechar-se sobre si, o que provoca por vezes angústias paralisantes. A maior parte das suas energias é mobilizada ou requisitada para evitar o emergir da angústia e dos conflitos internos.</p>
<p><em><strong>A componente da instabilidade dos humores ou dos comportamentos</strong></em></p>
<p align="justify">Reconhece-se pela variabilidade cíclica das emoções e dos sentimentos, podendo levar ao aparecimento de comportamentos irracionais e imprevisíveis de dimensão exagerada, sem grande relação com as situações que os provocaram. O que caracteriza esta componente é a alternância de fases de excitabilidade (falsa alegria ou boa disposição excessiva, agitação, logorreia) e fases de desânimo, de abatimento, de depressão, de não confiança em si ou de dúvida e confusão.</p>
<p align="justify">Esta dominante, baseada numa alternância imprevisível das fases de excitação e de depressão, parece muitas vezes quase independente das estimulações exteriores. A forma patológica será uma maníaco-depressão podendo ir até ao delírio, com passagem a actos e condutas inadaptadas, que inquietam e culpabilizam quem está à sua volta. Pode chegar mesmo ao suicídio ou a depressões profundas.</p>
<p><em><strong>A componente narcisista</strong></em></p>
<p align="justify">O ego invade todo o espaço social, sendo incapaz de se descentrar e de ter em conta os outros, firmando-se sempre num sentido grandioso da sua própria importância, numa inflação das suas realizações ou capacidades, necessitando sempre de ser reconhecido como excepcional, e isto alternando com fases de desânimo provocadas pelo sentimento de ser indigno ou de nada valer.</p>
<p align="justify">Isto porque a maneira habitual de ser é regida por um ideal de si muito elevado, que não admite erros ou hesitações. O sentimento que lhe corresponde é mais o de vergonha do que o de culpa, e as reacções são mais crises de raiva contra si mesmo do que de cólera contra o outro. Usa-se o outro como um meio de se fazer valer ou para atingir os seus fins, tratando-o como alguém cuja função é sobretudo a de reforçar a sua auto-estima.</p>
<p align="justify">Baseia-se na ilusão de ser o centro e o senhor do mundo e apoia-se, na sua máxima pujança, numa contradição. Toda a tendência narcísica exagerada afirma-se e proclama-se auto-suficiente, mas ao mesmo tempo tem necessidade da presença do outro para a reconhecer e aprovar. O narcisista pode exercer um verdadeiro terrorismo relacional, porque centra tudo em si. Tudo se passa como se o mundo inteiro devesse reconhecê-lo. Encontraremos inevitavelmente pessoas que apresentam esta componente em postos de poder, para os quais são atraídas&#8230;</p>
<p><em><strong>A componente perversa</strong></em></p>
<p align="justify">Esta componente é difícil de definir em poucas palavras porque o termo tem sido objecto de amálgamas de sentido e de usos redutores. É muito importante dizer algumas palavras a seu respeito pois é talvez, dentre as componentes aqui evocadas, a mais difícil de reconhecer em nós e nos outros. A componente perversa alimenta-se, nas suas formas mais estruturadas, do prazer de fazer mal e de fazer sofrer. Mas caracteriza-se sobretudo por uma forma especial de se relacionar com o outro, reduzindo-o ao estatuto de objecto. A relação perversa traduz-se por uma forma de relação abusiva de ascendente que é a forma mais extrema da relação desigual. Reconhece-se pela influência que um dos parceiros exerce sobre o outro, sem este dar conta.</p>
<p align="justify">Opõe-se à relação de domínio obsessivo que resulta de uma diferença clara entre ele e os outros. A relação de domínio perversa apanha o parceiro ou o interlocutor por meio de atitudes sedutoras muito hábeis que lhe conferem um papel de duplo ou de espelho. Por exemplo, neste caso, o emprego do “nós” não tem o mesmo valor do “nós” como sentimento de pertença. É um “nós” que inclui o outro sem lhe pedir opinião, como se fosse evidente que é cúmplice e que não pode viver, sentir, perceber ou pensar de forma diferente da daquele que fala.</p>
<p align="justify">Os comportamentos relacionais deste tipo não manifestam a forte oposição das estruturas psicopáticas, que utilizam formas de acção bastante mais evidentes. Apoiam-se num duplo jogo relacional que passa por uma submissão aparente e uma boa colaboração, embora de facto não seja autêntica, pontuada, de uma forma ou de outra, por transgressões constantes das regras e das leis. Estas características são tanto mais perniciosas e ambíguas quanto elas se dissimulam habilmente.</p>
<p align="justify">Entre as atitudes relacionais perversas encontram-se também todas as formas de dizer uma mentira para saber a verdade, de apresentar o fictício como real, e todos aqueles jogos do dar a entender e dissimular, da utilização de segredos com o fim de captar a atenção do outro e obter a sua adesão, para o fascinar e atiçar-lhe a curiosidade. Todas as formas de devassamento ou intromissão na intimidade, por exemplo, pertencem a esta categoria. A componente perversa recorre particularmente a mensagens não verbais com numerosas contradições entre o que é dito e o que realmente se transmite ou exprime numa linguagem analógica.</p>
<p><em><strong>A componente parasitária</strong></em></p>
<p align="justify">Traduz-se pela necessidade de depender de alguém e de reclamar sempre desse alguém. O parasita agarra-se a alguém que lhe pareça suficientemente dador e sólido para responder às suas necessidades. Boca aberta e mão estendida, as primeiras palavras pronunciadas num encontro traduzem um pedido: “Pensaste em mim, devias dar-me&#8230;”, “Não te esqueceste de me trazer o que me tinhas prometido?” As modalidades de manipulação são variáveis e de uma habilidade muitas vezes notável e inesgotável. Na maior parte dos casos, o parasita faz crer ao outro que é este que precisa dele. Na sua forma extrema, o parasita agarra-se literalmente a um alter ego que ele vai devorar mais ou menos rapidamente.</p>
<p><strong>Compromisso e evolução</strong></p>
<p align="justify">Na perspectiva de um compromisso relacional de longa duração, convém estar atento aos efeitos amplificadores e desestabilizadores do encontro e da confrontação com uma ou outra destas dominantes. Veremos que determinadas dominantes numa pessoa podem ter um efeito inibidor na outra, ou ao contrário, pois certas dominantes podem ter efeitos de estímulo e ampliação que, por sua vez, irão revelar-se também alienantes.</p>
<p align="justify">Por exemplo, uma dominante paranóide, ligando-se a uma dominante sadomasoquista, pode chegar a uma relação incrivelmente dolorosa para cada um dos protagonistas, e rapidamente infernal ou impossível. Uma dominante obsessiva, ligada a uma componente histeróide, pode criar paixões loucas e inviáveis, que, no entanto, durarão, para grande<br />
mal-estar de cada um deles.</p>
<p align="justify">Caberá a cada um de nós ser não só o mais lúcido possível quanto às nossas componentes e sobretudo relativamente à dominante principal, mas também estar vigilante, atento às componentes e à dominante relacional do outro, particularmente quando se pretende construir uma relação duradoura de compromisso afectivo ou de colaboração com ele&#8230;</p>
<p align="justify">Os aspectos descritos são de carácter estrutural. Constituem uma parte da armação ou da ossatura da personalidade, por oposição aos sintomas cujas manifestações são as formas mais visíveis. Seria vão e ilusório acreditar no seu desaparecimento. Quando muito poder-se-á pô-los a funcionar no mínimo e aligeirá-los no quadro de um trabalho terapêutico aprofundado que permita intervir ao nível dos mecanismos de defesa principais.</p>
<p align="justify">A nossa liberdade no dia-a-dia depende da possibilidade de nos tornarmos mais conscientes e vigilantes relativamente ao que nos afecta, e de nos respeitarmos o bastante para não criarmos ou não nos metermos em situações relacionais que poderão revelar-se catastróficas para nós.</p>
<p align="justify">Estas reflexões podem fazer-nos compreender melhor que certas relações estão à partida votadas ao fracasso. Os perigos são por vezes terríveis ao querermos fazer coabitar personalidades inconciliáveis cujas dominantes vão reactivar-se negativamente de forma demasiado forte ou demasiado explosiva.</p>
<p align="justify">A dificuldade reside no facto de que em certas relações estamos a maior parte das vezes cegos, siderados ou anestesiados por apostas afectivas, emocionais ou funcionais que parecem prioritárias, o que não nos permite tomar uma posição clara e lúcida&#8230; preventiva e salutar.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/oladosombra.wordpress.com/52/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/oladosombra.wordpress.com/52/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oladosombra.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oladosombra.wordpress.com/52/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=52&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A criação do inimigo: nós e eles no corpo político</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 21:12:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
				<category><![CDATA[análise]]></category>
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		<description><![CDATA[Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.) Ao Encontro da Sombra S. Paulo, Cultrix, 1998 Excertos adaptados A criação do inimigo: nós e eles no corpo político Por mais repulsiva que possa parecer a ideia, precisamos de inimigos. A vida humana parece florescer com eles, parece depender deles. A criação de um inimigo parece servir um [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=51&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)<br />
<em>Ao Encontro da Sombra</em><br />
S. Paulo, Cultrix, 1998<br />
Excertos adaptados</p>
<p align="center"><strong>A criação do inimigo: nós e eles no corpo político</strong></p>
<p align="justify">Por mais repulsiva que possa parecer a ideia, precisamos de inimigos. A vida humana parece florescer com eles, parece depender deles.</p>
<p align="justify">A criação de um inimigo parece servir um propósito vital: podemos, de um modo inconsciente e indolor, atribuir aos nossos inimigos aquelas características que não conseguimos tolerar em nós mesmos. Quando observada através das lentes psicológicas, a criação do inimigo é uma transposição da nossa sombra sobre pessoas que, por motivos em geral bastante complexos, se adaptam à imagem que fazemos do ser inferior. Basta-nos pensar nas pessoas a quem julgamos, por quem sentimos aversão ou contra quem mantemos preconceitos secretos, para que nos descubramos nas garras da nossa natureza mais escura.</p>
<p align="justify">Em termos de país, de raça, de religião ou de qualquer outra identidade colectiva, podemos observar que a criação do inimigo é realizada em proporções míticas, dramáticas e muitas vezes trágicas. Guerras, cruzadas e perseguições constituem o terrível património dessa forma da sombra <em>humana</em>, que é, até certo ponto, um legado da nossa herança tribal instintiva.</p>
<p align="justify">As maiores crueldades na história da humanidade foram praticadas em nome de causas virtuosas, quando as sombras de nações inteiras se projectaram sobre a face de um inimigo; e, assim, um grupo “diferente” pode ser transformado em inimigo, em bode expiatório ou em infiel.</p>
<p align="justify">A função última de guerrear um inimigo é a redenção. De acordo com o filósofo social Ernest Becker: <em>Se existe uma coisa que as trágicas guerras da nossa época nos ensinaram é que o inimigo tem um papel ritual a desempenhar e, por meio dele, o mal é redimido. Todas as guerras, portanto, são travadas como guerras santas num duplo sentido – como uma revelação do destino, uma prova do favor divino e como uma maneira de eliminar o mal do mundo.</em></p>
<p align="justify">A nossa época viu um incrível desperdício de recursos humanos e materiais, dissipados para manter o jogo da “criação do inimigo” na <em>Guerra Fria</em>. Já comprometemos o futuro dos nossos filhos com armamentos e tecnologias bélicas. Esperamos poder tirar partido destas lições e assim desmontar esta engrenagem obsoleta.</p>
<p align="justify">O mundo parece estar à espera de uma nova era de cooperação construtiva, de um novo milénio no qual usaremos, para resolver problemas, a energia que hoje desperdiçamos ao criar o inimigo. O novo inimigo a ser combatido não exige projecção; temos acesso a ele, reconhecendo simplesmente as nossas próprias <em>sombras colectivas</em> e assumindo a nossa responsabilidade, pois ele agora tornou-se manifesto sob a forma do desastre ecológico, do efeito de estufa, da extinção de incontáveis espécies e da privação económica e desnutrição de muitos povos.</p>
<p align="center">PARA CRIAR UM INIMIGO</p>
<p align="right">Sam Keen</p>
<p align="center">
<em>Comece com uma tela em branco<br />
e delineie, num contorno geral, as formas<br />
de homens, mulheres e crianças.<br />
Mergulhe fundo no poço inconsciente<br />
da sua própria sombra reprimida<br />
com um pincel largo e<br />
salpique os estranhos com o matiz sinistro da sombra.</p>
<p>Trace sobre o rosto do inimigo<br />
a avidez, o ódio e a negligência que você não ousa<br />
assumir como seus.</p>
<p>Obscureça a doce individualidade de cada rosto.</p>
<p>Apague todos os traços de mil amores, esperanças<br />
e medos que brincam pelo caleidoscópio de<br />
cada coração finito.</p>
<p>Retorça o sorriso até que ele forme um arco<br />
descendente de crueldade.</p>
<p>Arranque a carne dos ossos até que só reste<br />
o esqueleto abstracto da morte.</p>
<p>Exagere as feições para que o homem se metamorfoseie<br />
em besta, verme, insecto.</p>
<p>Preencha o fundo com figuras malignas<br />
de antigos sonhos – diabos,<br />
demónios e guerreiros do mal.</p>
<p>Quando a sua estátua do inimigo estiver completa<br />
você será capaz de matar sem sentir culpa,<br />
trucidar sem sentir vergonha.</p>
<p>A coisa que você destrói tornou-se apenas<br />
um inimigo de Deus, um estorvo<br />
à sagrada dialéctica da História.</em></p>
<p>Continuação: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/o-criador-de-inimigos/">O Criador de Inimigos</a></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/oladosombra.wordpress.com/51/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/oladosombra.wordpress.com/51/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oladosombra.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oladosombra.wordpress.com/51/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=51&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O Criador de Inimigos</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 20:57:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.) Ao Encontro da Sombra S. Paulo, Cultrix, 1998 Excertos adaptados Anterior: A criação do inimigo: nós e eles no corpo político O Criador de Inimigos No começo, criámos o inimigo. Antes da arma, vem a imagem. Pensamos em matar os outros e então inventamos a alabarda ou o míssil [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=50&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)<br />
<em>Ao Encontro da Sombra</em><br />
S. Paulo, Cultrix, 1998<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p>Anterior: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/a-criacao-do-inimigo-nos-e-eles-no-corpo-politico/">A criação do inimigo: nós e eles no corpo político</a></p>
<p align="center"><strong>O Criador de Inimigos</strong></p>
<p align="justify">No começo, criámos o inimigo. Antes da arma, vem a imagem. Pensamos em matar os outros e então inventamos a alabarda ou o míssil nuclear com os quais realmente os matamos. A propaganda precede a tecnologia.</p>
<p align="justify">Políticos de esquerda e de direita continuam a não entender as coisas. Eles acham que o inimigo desaparecerá no instante em que mudarmos a maneira como nos servimos das nossas armas. Os conservadores acreditam que o inimigo se assustará e ficará manso se tivermos armas maiores e melhores. Os liberais acreditam que o inimigo se tornará nosso amigo se reduzirmos o nosso arsenal bélico.</p>
<p align="justify">Ambos raciocinam a partir de premissas nacionalistas e optimistas: nós, seres humanos, somos racionais e pragmáticos animais fabricantes de ferramentas. Ao longo da história, já progredimos bastante e tornamo-nos o <em>Homo sapiens</em> (“homem racional”) e o <em>Homo faber</em> (“homem artífice”). Portanto, podemos fazer a paz através de negociações racionais e do controle de armamentos.</p>
<p align="justify">Só que isto não está a funcionar. O problema parece estar, não na nossa razão ou na nossa tecnologia, mas na insensibilidade dos nossos corações. Geração após geração, encontramos desculpas para nos odiarmos e desumanizarmos uns aos outros e sempre nos justificamos com a retórica política que nos parece mais amadurecida. E recusamo-nos a admitir o óbvio. Nós, seres humanos, somos <em>Homo hostilis</em> (“homem hostil”), a espécie hostil, o animal que fabrica inimigos.</p>
<p align="justify">Somos levados a fabricar um inimigo como um <em>bode expiatório</em>, para carregar o fardo da inimizade que reprimimos. Do resíduo inconsciente da nossa hostilidade, criamos um alvo; dos nossos demónios particulares, conjuramos um inimigo público. As guerras em que nos envolvemos talvez sejam, no fundo, rituais compulsivos, dramas da sombra nos quais continuamente tentamos matar aquelas partes de nós mesmos que negamos e desprezamos.</p>
<p align="justify">A nossa melhor esperança de sobrevivência está em mudar o modo como pensamos os inimigos e a guerra. Em vez de sermos hipnotizados pelo inimigo, precisamos de começar a observar os olhos com os quais vemos o inimigo. Vamos agora explorar a mente do <em>Homo hostilis</em>: vamos examinar em detalhe as maneiras como fabricamos a imagem do inimigo, como criamos um excesso de mal, como transformamos o mundo num campo de matança.</p>
<p align="justify">Parece improvável que alcancemos qualquer sucesso no controle da guerra a menos que cheguemos a compreender a lógica da paranóia política e o processo de criação da propaganda que justifica a nossa hostilidade. Precisamos de tomar consciência daquilo a que Carl Jung chamou a sombra.</p>
<p align="justify">Os heróis e líderes pacifistas do nosso tempo serão aqueles homens e mulheres com coragem para mergulhar nas trevas do fundo da psique pessoal e colectiva, e enfrentar o inimigo interior. A psicologia das profundezas presenteou-nos com a inegável sabedoria de que o inimigo é construído a partir de aspectos reprimidos do <em>Si Mesmo</em> [O <em>Si Mesmo</em> é o núcleo consciente da psique, o nó mais íntimo da nossa Consciência] .</p>
<p align="justify">Portanto, o mandamento radical “Ama os teus inimigos como a ti mesmo” indica o caminho tanto para o auto-conhecimento como para a paz. Na verdade, amamos ou odiamos os nossos inimigos na mesma medida em que nos amamos ou odiamos a nós mesmos. Na imagem do inimigo, encontraremos o espelho no qual podemos ver a nossa própria face com a máxima clareza.</p>
<p align="justify">Mas é um facto que existem agressores, impérios do mal, homens e mulheres perversos no mundo real. Existiram e existem vilões reais – Hitler, Estaline, Pol Pot (líder do Khmer Vermelho do Camboja, responsável pela morte de dois milhões de pessoas do seu próprio povo). Assim como só entendemos a luz quando a consideramos como onda e partícula, só poderemos estudar realmente o problema da guerra vendo-a como um sistema que é sustentado por estes pares:</p>
<p>A psique guerreira                  e               A cidade violenta<br />
Paranóia                                  e               Propaganda<br />
A imaginação hostil                 e               Os conflitos geopolíticos e de valores entre os países</p>
<p align="justify">O pensamento criativo sobre a guerra sempre envolverá a consideração da psique individual e das instituições sociais. A sociedade molda a psique e vice-versa. Portanto, temos de trabalhar para criar alternativas psicológicas e políticas à guerra, mudando a psique do <em>Homo hostilis</em> e a estrutura das relações internacionais. Ou seja, trata-se tanto de uma heróica jornada no <em>Si Mesmo</em> quanto de uma nova forma de política compassiva.</p>
<p align="justify">Não temos nenhuma possibilidade de reduzir as guerras a não ser que observemos as raízes psicológicas da paranóia, da projecção e da propaganda; a não ser que deixemos de ignorar as cruéis práticas de educação dos jovens, as injustiças, os interesses especiais das elites no poder, os históricos conflitos raciais, económicos e religiosos, e as intensas pressões populacionais que sustêm o sistema da guerra.</p>
<p align="justify">A paranóia envolve um complexo de mecanismos mentais, emocionais e sociais; através dele uma pessoa, ou um povo, reivindicam para si rectidão e pureza, e atribuem hostilidade e mal ao inimigo. O processo começa com uma divisão entre o lado “bom”, com o qual nos identificamos conscientemente e que é celebrado pela mitologia e pelos media, e o lado “mau”, que permanecerá inconsciente na medida em que puder ser projectado sobre um inimigo. Através dessa prestidigitação, fazemos com que as partes inaceitáveis do ser humano – as suas avidez, crueldade, sadismo, hostilidade, aquilo a que Jung chamou a sombra – desapareçam e só as reconheçamos como qualidades do inimigo. A paranóia reduz a ansiedade e a culpa ao transferir para o outro todas as características que a pessoa não quer reconhecer em si mesma.</p>
<p align="justify">Ela é mantida pela percepção selectiva e pela reevocação. Nós vemos e reconhecemos unicamente os aspectos negativos do inimigo que sustentam o estereótipo que já criámos. Por isso, a televisão norte-americana transmite principalmente as más notícias sobre os russos, e vice-versa. Lembramo-nos apenas das evidências que confirmam os nossos preconceitos.</p>
<p align="justify">A melhor ilustração da feição paranóica está, sem dúvida, na propaganda anti-semita. Para o anti-semita, o judeu é a fonte do mal. Por detrás dos inimigos acidentais e históricos da Alemanha – Inglaterra, Estados Unidos, Rússia – sempre esteve emboscado o judeu conspirador. A ameaça era simples e oculta a um olhar casual, mas evidente para aqueles que realmente acreditavam na supremacia ariana.</p>
<p align="justify">Dentro dessa lógica retorcida, fazia sentido para os nazis desviar os comboios tão necessários ao transporte das tropas até à frente a fim de levar os judeus aos campos de concentração para a “solução final”. Para a mente paranóica, a própria noção de igualdade é impossível. Um paranóico precisa de ser sadicamente superior e dominar os outros, ou masoquisticamente inferior e sentir-se ameaçado por eles.</p>
<p align="justify">O <em>Homo hostilis</em> é incuravelmente dualista, um maniqueu moralista:</p>
<p align="justify"><em>Nós somos inocentes.<br />
                                   Eles são culpados.<br />
Nós dizemos a verdade – informamos.<br />
                                   Eles mentem – usam propaganda.<br />
Nós apenas nos defendemos.<br />
                                 Eles são agressores.<br />
Nós temos um departamento de defesa.<br />
                               Eles têm um departamento de guerra.<br />
Os nossos mísseis e armamentos destinam-se a dissuadir.<br />
                              As armas deles destinam-se a atacar primeiro.</em></p>
<p align="justify">O mais terrível de todos os paradoxos morais, o nó górdio que precisa de ser cortado se queremos que a História prossiga, é que criamos o mal a partir dos nossos ideais mais elevados e das nossas mais nobres aspirações. Tanto precisamos de ser heróicos, de estar ao lado de Deus, eliminar o mal, limpar o mundo e vencer a morte, que vemos destruição e morte em todos aqueles que se põem no caminho do nosso heróico destino histórico.</p>
<p align="justify">Procuramos bodes expiatórios e criamos inimigos absolutos, não por sermos intrinsecamente cruéis mas porque o facto de focalizarmos a nossa raiva sobre um alvo externo e atingirmos um estranho faz com que a nossa raça ou nação se una, e tal facto permite-nos fazer parte de um grupo restrito e bom. Criamos um excesso de mal porque precisamos de pertencer a um lugar que queremos chamar “nosso”.</p>
<p align="justify">Por que criamos psiconautas, exploradores das alturas e das profundezas da psique? Por que dramatizamos o guerreiro da batalha interior que luta contra a paranóia, as ilusões, a auto-indulgência, a culpa e a vergonha infantis, a indolência, a crueldade, a hostilidade, o medo, a reprovação, a falta de sentido? Por que é que a sociedade reconhece e celebra a coragem daqueles que lutam contra as tentações demoníacas do Ser, que empreendem uma guerra santa contra tudo o que é mau, distorcido, perverso e ofensivo do <em>Si Mesmo</em>?</p>
<p align="justify">Se queremos a paz, cada um de nós precisa de começar a desmistificar o inimigo; de deixar de politizar os eventos psicológicos; de reassumir a sua sombra; de fazer um estudo complexo das mil maneiras pelas quais reprimimos, negamos e projectamos o nosso egoísmo, crueldade, avidez, etc. sobre os outros; de consciencializar a maneira pela qual, inconscientemente, criamos uma psique guerreira e perpetuamos as muitas formas de guerra.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/oladosombra.wordpress.com/50/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/oladosombra.wordpress.com/50/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oladosombra.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oladosombra.wordpress.com/50/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=50&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Amigos da alma/Amigos da sombra</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 20:39:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Connie Zweig and Steve Wolf Romancing the Shadow New York, The Ballantine Publishing Group, 1997 Excertos adaptados Amigos da alma/Amigos da sombra Há culturas nas quais a amizade é celebrada através de rituais. Na Índia, os rapazes casam-se duas vezes: na puberdade, com um amigo, numa promessa de amizade eterna, e aos 16 anos, com [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=49&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Connie Zweig and Steve Wolf<br />
<em>Romancing the Shadow</em><br />
New York, The Ballantine Publishing Group, 1997<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p align="center"><strong>Amigos da alma/Amigos da sombra</strong></p>
<p align="justify">Há culturas nas quais a amizade é celebrada através de rituais. Na Índia, os rapazes casam-se duas vezes: na puberdade, com um amigo, numa promessa de amizade eterna, e aos 16 anos, com uma rapariga, também numa relação que se pretende que dure toda a vida. Estes rituais oferecem ao rapaz uma sensação de segurança dentro da precaridade da sua vida. Na Alemanha, existe uma cerimónia para selar uma amizade, que requer que duas pessoas, cada uma com um copo de vinho ou de cerveja na mão, se tornem fisicamente próximas ao entrelaçar os braços e beber à saúde de uma amizade eterna.</p>
<p align="justify">Este tipo de amizade não é uma amizade entre <em>personae</em> (<em>as “máscaras”sociais, os papéis desempenhados em público</em>), que surge em determinadas circunstâncias, tais como um ambiente de trabalho comum, uma equipa onde ambos praticam desporto, ou associações de pais. Não decorre de objectivos comuns, sejam as pessoas membros de um clube ou membros de uma comunidade espiritual em busca de um grau de consciência mais elevado.</p>
<p align="justify">Numa amizade entre <em>personae</em>, podemos sentirmo-nos atraídos pelas defesas da outra pessoa – dinheiro, sexo ou poder – e tentar conquistá-la para nosso benefício, usá- la para os nossos próprios fins. Podemos fossilizar-nos em determinados papéis (um dos amigos assegura a dependência do outro), em determinadas situações (um dos amigos sente-se superior e o outro sente-se inferior, experimentando vergonha e inveja), ou podemos ainda partilhar o gosto por um passatempo comum, tal como compras ou basquetebol, sem que haja trocas de grande intimidade. Numa amizade entre <em>personae</em>, ambas tendem a ser pessoas sentimentais, o que é um substituto para emoções mais profundas e obscuras.</p>
<p align="justify">Numa <em>amizade entre almas</em>, pelo contrário, honramos e reconhecemos a natureza essencial do outro. Os papéis são mais fluidos. O respeito é mútuo. O laço que se forjou não depende do <em>faze</em>r mas do <em>ser</em>. A amizade entre almas exige uma lealdade que vai para além dos sentimentos ou opiniões passageiros do amigo, uma fidelidade que vai para além de objectivos ou aparências temporários. Exige autenticidade, lealdade à alma. Oferece-nos, em troca, um lugar no qual não temos de nos esconder.</p>
<p align="justify">A amizade da alma tem diferentes significados em diferentes contextos. Para raparigas que se encontram na adolescência e se tornam inseparáveis, permanecendo juntas durante a faculdade e mesmo depois do casamento e da maternidade, a amizade sobrevive à passagem do tempo. Continua firme apesar das diferentes circunstâncias da vida e das diferenças de desenvolvimento de cada amiga. Pode perder em intensidade, permanecer apenas latente durante anos, ou ser a única relação duradoura que ambas conheceram. Essa amizade proporciona a cada uma das mulheres, na figura da outra, uma testemunha da sua vida e um refúgio.</p>
<p align="justify">A memória de uma história partilhada é a chave para estas amizades duradouras. A deusa da memória, Mnemosina, assegura a relação ao permitir aos amigos partilhar o passado, mesmo quando os laços do presente são ténues. Como mãe das Musas, Mnemosina adora devaneios, narrativas, poemas e mitos, bem como as imagens que sustêm as narrativas. Quando os amigos recordam o passado, estão menos interessados nos factos do que do que nas memórias simbólicas, os momentos intensamente sentidos, plenos de profundidade. A amizade, tal como a psicoterapia, permite que esta qualidade subjectiva da memória se manifeste.</p>
<p align="justify">Alguns amigos que se encontram anos mais tarde sentem-se como se se compreendessem sem ter de falar. A afinidade transcende a sua história pessoal. Por isso, não necessitam de falar do passado. Falam logo do presente, porque os laços que os unem são intemporais, como se algo tivesse colado os seus destinos.</p>
<p align="justify">Aqueles que se sentem atraídos pelas suas afinidades, sentem-se como se estivessem com um gémeo. Tal como aconteceu com os gémeos gregos Castor e Polux, há tribos africanas em que o amigo ideal é o irmão gémeo. Acredita-se também que as crianças nascidas no mesmo dia, embora nascidas separadas, têm um laço a uni-las que durará toda a vida. Personificam o mistério da coexistência de duas pessoas numa.</p>
<p align="justify">Outros amigos há que não são atraídos pelas afinidades como pelas diferenças, diferenças essas que os ajudam a manter a sua própria identidade. O amigo é o Outro, aquele que desafia as nossas capacidades e nos impõe limites. No <em>amigo-sombra</em> encontramos o Outro para nos encontrarmos a nós mesmos.</p>
<p align="justify">Quando Eve, uma artista de S. Francisco, encontrou Myra, uma estudante de Direito sino-americana, deu-se uma colisão de mundos. As suas diferenças culturais e pessoais eram explosivas. Como reacção a uma mãe controladora, Eve tinha desenvolvido um estilo de vida livre de obrigações, compromissos pessoais ou laborais. Myra, pelo contrário, acreditava no dever para com a família, os amigos e o trabalho. Desejava servir os outros, estruturar o seu tempo, e conservar a sua privacidade e simplicidade. Ambas queriam ser amigas uma da outra. Cada uma delas se sentia atraída pelas diferenças da outra. No entanto, como tinham banido para a sombra muitas das qualidades da Outra, irritavam-se com frequência. Como dizia Eve: “É penoso estar em guerra com a minha própria natureza que está dentro da minha amiga.”</p>
<p align="justify">Para que a sua amizade pudesse sobreviver, Eve e Myra tiveram de trabalhar as suas próprias sombras. Tiveram de aprender a ter paciência uma com a outra e a tolerar as respectivas diferenças. Precisaram de observar as projecções da sombra que faziam, de modo a parar com o ciclo de sofrimento que se causavam mutuamente. Se cada uma tivesse tentado converter a outra às suas características, a amizade teria soçobrado. Ao explorarem as suas especificidades e as da amiga, cada uma descobriu formas de se enriquecer e enriquecer a amizade, alargando horizontes até então limitados às suas formas pessoais de ver o mundo.</p>
<p align="justify">Há pares para os quais a <em>Alteridade</em> do outro é demasiado sombria e desconfortável. Assim, nem sequer se pode iniciar a amizade. Quando Brian, de trinta e cinco anos, conheceu Sam, de vinte e oito, sentiu-se repelido pelas tentativas deste de estabelecer amizade. Não percebia por que motivo o tom de voz de Sam e a sua abordagem tinham despoletado nele uma reacção tão negativa.</p>
<p align="justify">“Quando o Sam fala, é sempre muito gentil, como não quisesse ofender ninguém. Fala sem cessar sobre a sua religião <em>new age</em>. Acha que se todos meditassem como ele, poder-se-ia pôr um fim à violência. Não suporto esta atitude delicodoce, esta negação espiritual do sofrimento da vida. É tão farisaico; fala como se tivesse as respostas para todas as nossas necessidades. Fico doido.”</p>
<p align="justify">Brian também tinha estado envolvido numa comunidade de meditação alguns anos antes, e tinha-se sentido profundamente desiludido com as suas práticas e preceitos. Tinha entretanto casado e sido pai, assumindo as suas responsabilidades familiares e laborais. Quando encontrou Sam, foi como se tivesse encontrado uma parte passada de si mesmo, que agora lhe parecia ingénua e inautêntica. Ouviu na voz do outro o seu próprio farisaísmo e pô-lo de lado.</p>
<p align="justify">Se, em vez de guardar para si estes sentimentos de vergonha pelo passado, Brian os tivesse trabalhado, talvez sentisse compaixão por Sam, quer se tornasse ou não seu amigo. Como não o fez, ficou refém da sua projecção da sombra e tornou-se cego a qualquer contributo que Sam lhe pudesse trazer. Também não pôde decidir se aprofundava ou não a relação.<br />
James Hillman chamou a atenção para o facto de que o Outro, que se pode tornar amigo ou inimigo, é-nos mais dado que escolhido. Neste sentido, é um instrumento do destino. O reconhecimento de <em>amigos-sombra</em> pressupõe o reconhecimento de laços profundos e o levar a cabo de obrigações mútuas. O falhanço de um dos amigos em desempenhar a sua parte redundará em desapontamento amargo.</p>
<p align="justify">Quem é o nosso amigo da alma? Quem é o nosso amigo da sombra? Que amizade sacrificámos devido a uma projecção da sombra?</p>
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		<title>Domar a sombra</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 13:30:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Jean Monbourquette Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi Québec, Novalis, 2001 Excertos adaptados Domar a sombra A minha sombra é minha amiga ou minha inimiga? Tudo depende da forma como a considero, como me relaciono com ela. Quando a encontramos pela primeira vez, surge como uma inimiga. O desafio é transformá-la em [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=48&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Jean Monbourquette<br />
<em>Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi</em><br />
Québec, Novalis, 2001<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p align="center"><strong>Domar a sombra</strong></p>
<p align="justify">A minha sombra é minha amiga ou minha inimiga? Tudo depende da forma como a considero, como me relaciono com ela. Quando a encontramos pela primeira vez, surge como uma inimiga. O desafio é transformá-la em nossa amiga.</p>
<p align="center"><strong>A sombra e a auto-estima</strong></p>
<p align="justify">Carl Jung lembra que o psiquismo humano é um espaço de lutas íntimas: <em>É sabido que os dramas mais emocionantes e mais estranhos não são os que se passam no teatro, mas sim no coração de todos os homens e mulheres. Estes vivem sem chamar a atenção e não deixam transparecer de forma alguma os conflitos tumultuosos que os habitam, a não ser que se tornem vítimas de uma depressão cujas causas eles próprios ignoram.(1)</em></p>
<p align="justify">É fundamental que reintegremos a nossa sombra. Quem recusar este trabalho sobre si mesmo arrisca-se a ter desequilíbrios psicológicos sérios. Terá tendência para se sentir stressado e deprimido, viverá atormentado por um sentimento vago de angústia, de insatisfação consigo próprio e de culpabilidade. Ficará sujeito a toda a espécie de obsessões e será susceptível de se deixar arrastar pelos seus impulsos: ciúme, cólera mal gerida, ressentimentos, desvios sexuais, gula, etc.</p>
<p align="justify">Entre as dependências humanas mais comuns encontramos o alcoolismo e a toxicodependência, que tantos danos causam nas sociedades modernas. Sam Naifeh, num excelente artigo sobre as causas da dependência, afirma: <em>A dependência é um problema da sombra.(2)</em> De facto, a atracção compulsiva pelo álcool e pelas drogas provém da busca incoerente do lado sombrio do nosso ser. Acusamos as substâncias tóxicas de serem a causa de desgraças humanas, mas, na verdade, elas são apenas a sua causa indirecta, pois permitem ao seu utilizador ultrapassar os limites da consciência. Assim, por uns momentos, o utilizador pode identificar-se com o lado sombrio de si mesmo, lado esse que o atrai constantemente. A parte sóbria do alcoólico sentir-se-á permanentemente insatisfeita enquanto não encontrar a parte alcoólica escondida na sombra.</p>
<p align="center"><strong>Domar a Sombra para manter relações sociais sãs</strong></p>
<p><strong><em>Perturbações causadas pela projecção da sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Se a sombra não for reconhecida e acolhida, não só criará obsessões como forçará a sua entrada no consciente sob a forma de projecções sobre as outras pessoas.</p>
<p align="justify">Quais são os efeitos da projecção da sombra sobre os que nos rodeiam? Sob a influência das projecções da sua sombra, uma pessoa deturpa a sua percepção do real. Atribui aos outros os traços ou qualidades que não quer ver em si. Terá então tendência para idealizar os portadores das suas projecções, para desprezá-los ou para temê-los. Em resumo, o “projector” chegará a ter medo das projecções da sua sombra. Vê-la-á em pessoas que, aos seus olhos, serão fascinantes ou ameaçadoras, como se o seu olhar fosse um espelho deformante.</p>
<p align="justify">Quando tais fenómenos ocorrem nas relações sociais, há que esperar conflitos. Por uma curiosa lei de reflexão da luz, as projecções reflectem-se no próprio projector e apoderam-se dele. A pessoa cai sob o fascínio ou a repulsa da sua própria sombra.</p>
<p align="justify">À semelhança de um pugilista que treina tentando acertar na sua sombra, estará condenada a executar um contínuo e esgotante exercício de <em>shadow boxing</em> (3).</p>
<p><strong><em>Resolução dos conflitos criados pela projecção da sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Se alguém projecta os seus próprios defeitos ou fraquezas sobre outra pessoa, dificilmente conseguirá tolerar ou amar essa outra pessoa, quer ela seja o patrão, o vizinho, o cônjuge, ou o filho. Este semelhante há-de enervá-lo e há-de dominá-lo. Referimo-nos aqui à maior parte dos conflitos interpessoais e das disputas profissionais.</p>
<p align="justify">Para Carl Jung, a tomada de consciência das nossas projecções sobre os outros e do seu reflexo em nós produz não só uma melhoria nas relações interpessoais, mas também um efeito benéfico em toda a sociedade. Segundo Jung, todo o homem que se esforça por estar de acordo com a sua sombra, a fim de reintegrar as suas projecções, faz algo que beneficiará o mundo: <em>Por mais ínfimo que esse trabalho nos pareça, através dele conseguimos encontrar soluções para os enormes e inultrapassáveis problemas do nosso tempo (4).</em></p>
<p align="center"><strong>A moral da lei e a criação de “bodes expiatórios”</strong></p>
<p align="justify">Erich Neumann considera que uma ética preocupada apenas em determinar o que é bem e o que é mal é deficiente, porque não ajuda a pessoa a descobrir em si as raízes do mal e a munir-se de meios para as suprimir. Em oposição a esta ética, a que chama <em>A Velha Ética</em>, Neumann propõe uma outra – <em>A Nova Ética</em> – na qual o essencial da formação da consciência moral consiste em realizar a integração da sua sombra.</p>
<p align="justify">Neumann vê neste trabalho psico-espiritual um elemento determinante para a formação de uma verdadeira consciência moral. Longe de projectar nos outros as tendências desordenadas da sua sombra, o novo ser moral reconhece-as em si, assume a responsabilidade por elas e depois integra-as numa vida moral coerente.</p>
<p align="justify"><em>A Velha Ética</em> leva eventualmente à criação de uma mentalidade de “bode expiatório”, mentalidade que se manifesta, em primeiro lugar, no plano da vida pessoal, como fonte de antipatias e de conflitos de natureza relacional. Por vezes, essa mentalidade corre o risco de tomar proporções gigantescas quando transpostas a uma escala nacional. A este nível, a sombra tenderá a ver o diabo nas nações vizinhas e depois assume a missão de as destruir. Não terá sido esta a origem de numerosos conflitos armados ao longo da história? Pela mesma lógica, os estrangeiros, as minorias e as pessoas “diferentes” serão o alvo preferencial de projecções e transformar-se-ão em “bodes expiatórios”.</p>
<p align="justify">Para Neumann, só uma <em>Nova Ética</em> irá possibilitar às nações reconhecerem as suas próprias tendências perversas em vez de as projectarem. Será preciso recordar que as projecções da sombra colectiva não são inofensivas mas podem gerar perseguições e hecatombes, como o extermínio dos judeus pelos nazis?</p>
<p>(1) C.G. Jung, <em>Psychology and Religion: West and East</em>. (Collected Works,7), Bollingen Series, Princeton University Press, 1938, p. 528.<br />
(2) S. Naifeh, “Archetypal Foundations of Addiction and Recovery”, <em>in Journal of Analytical Psychology</em>, 40, 1995, p.148.<br />
(3) Exercício de boxe simulado com a sombra.<br />
(4) C.G. Jung, <em>op. cit.</em>, p.140.<br />
Continuação: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/a-concepcao-junguiana-da-sombra/">A concepção junguiana da sombra</a></p>
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	</item>
		<item>
		<title>A concepção junguiana da sombra</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 13:23:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Jean Monbourquette Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi Québec, Novalis, 2001 Excertos adaptados Anterior: Domar a sombra/A sombra e a auto-estima A concepção junguiana da sombra &#160; Jung à descoberta da teoria da sombra Jung, bem familiarizado com a psicanálise freudiana, conhecia a existência do mundo recalcado do inconsciente. Mas a ideia [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=47&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Jean Monbourquette<br />
<em>Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi</em><br />
Québec, Novalis, 2001<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p>Anterior: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/domar-a-sombra/">Domar a sombra/A sombra e a auto-estima</a></p>
<p align="center"><strong><br />
A concepção junguiana da sombra</strong></p>
<p align="center">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong><em>Jung à descoberta da teoria da sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Jung, bem familiarizado com a psicanálise freudiana, conhecia a existência do mundo recalcado do inconsciente. Mas a ideia de este ser formado por recalcamentos de entidades psicológicas pessoais não era do seu agrado. Precisava de ir mais longe.</p>
<p align="justify">As suas pesquisas sobre os mitos, os sonhos, as desilusões psicóticas e ainda o estudo de desenhos feitos por povos primitivos e por crianças, levaram-no à conclusão de que existe um outro inconsciente mais profundo, “o inconsciente colectivo”. Jung define-o como a memória de um conjunto de imagens ou de motivos, inata e comum a toda a humanidade. Chamou a estas configurações universais “arquétipos” porque se encontram em todas as civilizações. Para ele, a sombra era um desses arquétipos fundamentais.</p>
<p><strong><em>Formação de uma sombra mordaz e desagregada</em></strong></p>
<p align="justify">Para sermos mais precisos quanto à natureza da sombra, podemos dizer que se assemelha a variadas constelações, cada uma delas constituindo um “complexo psíquico”. Por sua vez, cada complexo é composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autónoma e dissociada do <em>eu</em> consciente. Esta estrutura constitui uma “sub-personalidade” comparável a uma “personagem” de uma peça de teatro, autónoma, independente do encenador e dotada da sua própria personalidade.</p>
<p align="justify">Estes complexos surgem muitas vezes nos sonhos do homem. Por vezes exercem sobre ele uma influência tão forte que ele se sente literalmente possuído. Desta forma, o homem faz o que não quer e não pode fazer aquilo que desejaria, como lamenta S. Paulo ao falar do “homem velho” que há em si(*).</p>
<p align="justify">(*) <em>Carta de S. Paulo aos Romanos 7</em>, 19.</p>
<p align="justify">
Continuação: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/tres-atitudes-a-evitar-no-trabalho-com-a-sombra/">Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra</a></p>
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		<title>Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 13:19:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
				<category><![CDATA[análise]]></category>
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		<description><![CDATA[Jean Monbourquette Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi Québec, Novalis, 2001 Excertos adaptados Anterior: A concepção junguiana da sombra Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra   Identificar-se com o ser ideal, excluindo a sombra Que acontece a quem se identifica exclusivamente com o seu ser ideal? Uma tal identificação [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=46&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Jean Monbourquette<br />
<em>Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi</em><br />
Québec, Novalis, 2001<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p>Anterior: <a href="http://oladosombra.wordpress.com/2007/11/05/a-concepcao-junguiana-da-sombra/">A concepção junguiana da sombra</a></p>
<p align="center"><strong><br />
</strong></p>
<p align="center"><strong>Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra<br />
</strong></p>
<p align="center"><strong><br />
 </strong></p>
<p align="justify"><strong><em>Identificar-se com o ser ideal, excluindo a sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Que acontece a quem se identifica exclusivamente com o seu ser ideal? Uma tal identificação leva não só à negação das pulsões da sombra, mas também à negação da própria existência da sombra. Além disso, a pessoa que o fizer tem de obedecer rigorosamente aos códigos do seu meio social. Levada pelo medo de ser excluída, vai criar uma ansiedade incontrolável à menor infracção das regras que protagonizar. Muito atenta às expectativas, reais ou imaginárias, do seu meio e extremamente preocupada em cuidar da sua imagem perante a sociedade, acabará por renunciar a satisfazer as suas aspirações mais autênticas.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p><strong><em>Identificar-se só com a sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Uma outra forma de actuar consiste em privilegiar o lado sombrio de si próprio e obedecer indiscriminadamente às pulsões. Quem opta por esta solução, fica muito rapidamente prisioneiro da sombra. Adopta toda a espécie de comportamentos reprováveis: comportamentos desviantes, instintivos, primitivos, infantis e regressivos. A vida em sociedade tornar-se-ia impossível para essa pessoa, porque daria livre curso às suas tendências sádicas, invejosas, ciumentas, sexuais e outras. Em resumo, quem aceitar tornar-se a sua própria sombra, condena-se a viver subjugado pelos seus desejos.</p>
<p align="justify">O romance de Robert Louis Stevenson, <em>The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde</em>, ilustra bem o perigo da identificação total com o lado sombrio. John Sanford, analista junguiano, fez uma análise penetrante desta história na qual o herói, o Dr. Henry Jekyll, sucumbe ao fascínio progressivo exercido pela sua sombra. Ao beber uma poção que ele mesmo preparara, o generoso médico transforma-se, pouco a pouco, numa pessoa sórdida, Edward Hyde.</p>
<p align="justify">Depois das primeiras tentativas de identificação com a sombra, isto é, com o seu <em>alter-ego</em> que é Hyde, Jekyll dá-se conta do perigo que corre e apressa-se a justificar a sua história de desdobramento, que pode, supõe ele, conduzi-lo à degradação moral. O médico tenta convencer-se de que está a fazer esta experiência em nome da ciência e, para tranquilizar a consciência, qualifica de “inofensiva” tal transformação. Chega mesmo ao ponto de ver nela apenas uma diversão. Na verdade, o perigoso convívio com o seu “duplo”, Hyde, proporciona-lhe um certo prazer, que pode, pensa, levá-lo a fazer jogadas sem consequências.</p>
<p align="justify">John Sanford, no seu comentário da obra, prova que o erro fundamental do Dr. Jekyll foi aceitar tornar-se a sua sombra. Longe de procurar uma tensão fecunda com o seu “duplo”, Jekyll recusa o desconforto dessa situação e prefere perder-se em Edward Hyde (*). Não será que o libertino faz o mesmo quando diz que a melhor forma de se libertar de uma tentação é ceder-lhe?</p>
<p align="justify">À medida que Jekyll se compraz cada vez mais em tornar-se Hyde, aquele cede progressivamente às exigências desta personagem tenebrosa. As suas frequentes decisões de parar com esta situação – até chega a retomar a prática religiosa – não são capazes de o libertar do poder de Hyde. Atinge então um ponto de não retorno em que todos os princípios morais e o domínio de si lhe escapam por completo. Fica à mercê de forças diabólicas contra as quais já nada pode. Impotente para resistir às suas pulsões de sadismo, chega a matar o colega, o bom Dr Carow.</p>
<p align="justify">A aventura do Dr. Jekyll ilustra bem o fracasso a que nos conduz a capitulação perante as pulsões da sombra. Esta atitude, longe de resolver a tensão moral, não ajuda em nada à reintegração da sombra.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p><strong><em>Identificar-se ora com o ser, ora com a sombra</em></strong></p>
<p align="justify">Neste caso, o indivíduo leva normalmente uma vida moral exemplar. A sua reputação de cônjuge, de pai e de cidadão modelo faz inveja a todos. Depois surgem momentos de fadiga e de depressão. As pessoas tomam então liberdades em relação aos seus princípios morais. Estes desvios temporários do comportamento assumem formas variadas, com graus de gravidade muito diversos: extravagâncias amorosas, aventuras sexuais, acessos de cólera, excesso de bebida, pequenas patifarias, calúnias, maledicências, etc.</p>
<p align="justify">Tais pessoas, seduzidas momentaneamente pela tentação, voltam a cair em si, arrependem-se das suas faltas, e tomam boas resoluções até reincidirem. Estão, com efeito, prisioneiras de um ciclo infernal. Recordo o caso de alguém, reputado pela sua incansável dedicação. Após períodos de trabalho intenso, deixava-se invadir por uma das suas sub-personalidades sombrias, que o levava aos maus caminhos da desordem sexual. Durante vários anos conheceu períodos de generosidade alternando com períodos de desvios sexuais.</p>
<p align="justify">Divididas entre as aspirações do ser e os impulsos da sombra, as pessoas correm o risco de naufragar ciclicamente num marasmo psicológico e espiritual e de ficarem prisioneiras de um círculo vicioso.</p>
<p><strong><em>A denúncia das projecções doentias</em></strong></p>
<p align="justify">O próprio Jesus Cristo denunciou aquilo que podemos considerar hoje o carácter nocivo das projecções da sombra, já que abominava os juízos malévolos contra o próximo.</p>
<p align="justify">A tal respeito fez afirmações que continuam actuais: <em>Porque assinalas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho? Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, espera. Eu tiro o cisco que tens no olho’, se tu não vês a trave que tens no teu? Homem de juízo perverso, tira primeiro a trave do teu olho! E então verás melhor para tirares o cisco que está no olho do teu irmão.(**)</em></p>
<p align="justify">Jesus exprime assim, à sua maneira, o que procurávamos demonstrar neste capítulo: antes de julgarmos os outros, pensando que estamos a ajudá-los, melhor seria resolvermos trabalhar sobre nós mesmos e aprendermos a recuperar as projecções da nossa sombra.</p>
<p align="justify">Cristo denuncia as projecções malévolas porque conhece os seus efeitos sobre aqueles a quem se dirigem. Fá-lo, nomeadamente, aquando do episódio da mulher adúltera maltratada por um grupo de homens. Uma mulher acabava de ser apanhada em flagrante delito de adultério. Os homens que a levaram junto do Mestre estavam a fazer dela “bode expiatório” das suas próprias faltas sexuais. Com uma frase lapidar, Jesus inverte a situação; interpela-os, fá-los tomar consciência da projecção e convida-os a assumir a responsabilidade das próprias faltas: <em>Aquele dentre vós que nunca pecou atire a primeira pedra.(***)</em></p>
<p align="justify">Mas a denúncia das projecções maldosas lançadas sobre os outros não se faz sem perigo, porque pode atrair sobre o denunciante a vingança das pessoas assim postas em causa. O destino que Jesus teve de sofrer ilustra-o bem.</p>
<p>(*) C. Zweig, J. Abrams (eds.), <em>Meeting the Shadow: The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature</em>, Los Angeles, Jeremy P. Tarcher, 1991.</p>
<p>(**)   <em>Lucas 6</em>, 41 – 43.</p>
<p>(***) <em>João 8</em>, 7.</p>
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		<title>A vindima das razões</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Nov 2007 13:07:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lsombra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Etienne Perrot La Voie de la Transformation Paris, La Fontaine de Pierre, 1980 Excertos adaptados A vindima das razões * No que diz respeito ao plano colectivo, a minha geração, a dos homens de cinquenta anos, esteve a ponto de ser arrastada pela onda de uma aventura que se reclamava explicitamente de Nietzsche. O nacional-socialismo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oladosombra.wordpress.com&amp;blog=1995136&amp;post=45&amp;subd=oladosombra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Etienne Perrot<br />
<em>La Voie de la Transformation</em><br />
Paris, La Fontaine de Pierre, 1980<br />
<em>Excertos adaptados</em></p>
<p align="center"><strong>A vindima das razões * </strong></p>
<p align="justify">No que diz respeito ao plano colectivo, a minha geração, a dos homens de cinquenta anos, esteve a ponto de ser arrastada pela onda de uma aventura que se reclamava explicitamente de Nietzsche. O nacional-socialismo – de que Zaratustra, mal compreendido, era um dos profetas – foi a ressurreição de um outro deus pagão, esse, germânico, Wotan, o desencadear de forças obscuras num grande povo cuja derrota de 1918, depois de tanto heroísmo, tinha quebrado os quadros, os valores conscientes. É significativo encontrar o generalíssimo Ludendorf junto de Hitler em Munique, por alturas da sua primeira tentativa de <em>putsch</em>, em 1923.</p>
<p align="justify">Foi esta enchente de energia psíquica que pôde, no início, entre nós e noutros lados, atrair mais do que um espírito em busca de uma fonte de renovação para a alma ocidental, até ao momento, infelizmente bem depressa chegado, onde se revelou de uma maneira flagrante que os cavaleiros eram incapazes de ter domínio sobre as montadas que tinham feito surgir da sombra: oitenta milhões de homens encontravam-se envolvidos numa loucura colectiva, que não podia terminar senão com um suicídio, porque os seres que ultrapassam toda a medida, todos os limite, acabam, finalmente, por um mecanismo de compensação inconsciente, por suscitar a sua própria perda. A mais perfeita encarnação do nazismo, a ordem militar das S.S., usava um uniforme negro ornamentado de cabeças de mortos. Ao terem semeado a morte, recolheram a morte.</p>
<p align="justify">Menos grandiosa, e também menos trágica, mas tocando-nos mais de perto, a onda de febre da Primavera de 1968 deve ser examinada do ponto de vista da psicologia das profundezas. Seria desejável que um estudo de conjunto lhe fosse consagrado desse ângulo: não deixaríamos de aí encontrar ensinamentos para o futuro da nossa sociedade, para o nosso futuro colectivo. Mais modestamente, contentar-me-ei em extrair da complexidade desse tumulto de que fomos testemunhas, e talvez actores, três aspectos essenciais da contestação dos valores estabelecidos, que se tornaram outros tantos símbolos: os paralelepípedos, o erotismo, os alucinogéneos.</p>
<p align="justify">O lançamento dos paralelepípedos entrou na história – na pequena ou na grande &#8211; pouco importa &#8211; para caracterizar o desencadeamento da violência entre os jovens amotinados. Os paralelos são pedras cúbicas; representam a energia inconsciente no que ela tem de mais denso, de mais bruto. A violência que ataca com a ajuda de projécteis minerais os representantes da ordem é acompanhada pelos ímpetos eróticos que transformam o templo da inteligência, a Sorbonne, em lupanar, e os anfiteatros, onde sábios distintos vinham dissertar doutamente sobre os ritos antigos do culto de Baco, em lugares de orgia onde a bacanal atinge o seu auge, sem literatura e sem cosmética. Orgia designa etimologicamente a celebração de Dionísio.</p>
<p align="justify">A profanação da Sorbonne possui um sentido ritual, simbólico, um valor de sinal dos tempos de que não devemos ignorar a importância. A Revolução Francesa – a grande – filha da era das Luzes, tinha encontrado a sua consagração filosófica, religiosa – ou anti-religiosa, o que vem dar no mesmo – na cerimónia oficial em que a deusa Razão tinha sido entronizada e venerada em lugar de Notre Dame, isto é, da sabedoria divina, do inconsciente sob o seu aspecto de Mãe de Deus, de Mãe do Si Mesmo [o nó mais intimo da Consciência], no centro do seu santuário, o coração de Paris, aquele coração de França, nação para a qual todos os olhos se tinham então voltado. Com alguma dificuldade, o reino da razão terá durado um século e meio. E qual foi, entre nós, o seu templo por excelência senão a universidade, de que a Sorbonne é o símbolo? E eis o novo ídolo por sua vez destronado, derrubado por rapazes e raparigas que fazem sua a revolta de Nietzsche, aquele professor universitário em ruptura, e que proclamam da forma mais inconscientemente expressiva o declínio do intelecto privado das suas raízes, ressequido, estéril, em cujo lugar eles se esforçam por restaurar Dionísio.</p>
<p align="justify">Conscientes, já o somos em demasia. Em nós, o eu monopolizou toda a energia. Esta energia, expandimo-la para fora, multiplicando as realizações exteriores, obras da nossa mão direita, a ponto de atulharmos a terra, e, finalmente, por uma terrível reviravolta das coisas, com o risco de a fazer explodir. Lembremo-nos de que, antes da primeira explosão nuclear, os responsáveis americanos se dedicaram a um estudo muito sério para saber se eles não correriam o risco de provocar uma reacção em cadeia que desintegrasse o planeta, e que as conclusões deste estudo tinham permanecido demasiado evasivas, apesar do que, decidiram tentar a aventura.</p>
<p align="justify">Como chegámos a este ponto? Eu digo “nós”, porque há no fundo de cada um qualquer coisa que se sente afinal solidária com uma atitude tão demente. É porque o consciente, fatigado com a sua própria claridade, se põe a vasculhar o escuro, não por dentro (ele tem demasiado medo do inconsciente e evita-o) mas por fora: penetra no centro da matéria, réplica exterior do inconsciente, introduz explosivos monstruosos no fundo da terra e no fundo dos mares, esses elementos maternos. Não sei se reflectiram no simbolismo grandioso deste absurdo prático: as explosões atómicas subterrâneas. O homem-titã tornou-se senhor da energia masculina por excelência, a força solar que roubou aos deuses, caricaturando Prometeu, aquela figura de Cristo, e agora vai descarregá-la no corpo da sua mãe: com o auxílio deste pénis mortal, ele desposa fisicamente a terra, viola-a e mutila-a.</p>
<p align="justify">Ao ponto a que chegámos, a única via de salvação consiste em efectuar o retorno: em lugar de se procurar o inconsciente no exterior (teria também podido falar da fuga na velocidade, nos espaços interplanetários), em lugar de se precipitar no inconsciente de cabeça para baixo, para aí encontrar a morte, regressar-se a si próprio, pôr-se a rodar para o lado esquerdo, em direcção ao seu próprio inconsciente. Em concreto o que quer isto dizer?</p>
<p align="justify">Apoiar a cabeça entre as mãos e “meditar”? Não, mas algo de muito mais difícil, talvez, porque aparentemente mais fútil, menos digno de nós: acolher os fantasmas, os sonhos, as imagens, os impulsos afectivos que sobem do fundo, e neles projectar a luz da nossa inteligência, consentindo em ver nestes vapores ténues, mensageiros de vida, origem de uma rectificação, de uma renovação. O intelecto encontra aqui a sua fonte e, ao mesmo tempo, o lugar e a dignidade de foco divino. Torna-nos capazes de apreender, de domesticar, de integrar, a pouco e pouco, a energia que dormita no fundo de nós próprios e que espera humildemente, que implora ”com gemidos inefáveis” (Romanos, VIII, 26) o nosso acordo, o nosso “sim” para poder elevar-se da prisão obscura na nossa vida, para aí se expandir e se transformar em ouro. Eis, sem dúvida, uma empresa mais ingrata e materialmente menos frutuosa do que colocar no mercado um aparelho potente, rápido, barulhento, interestelar. Mas as obras da natureza, as obras de Deus, são, aos olhos exteriores, frágeis, lentas, silenciosas. “Na verdade, tu és um deus escondido”, suspirava Isaías (Isaías XLV, 15). A roda de um tractor, a sola de alguém que passa, esmagam a maravilha de delicadeza, de forma e de cor que é uma flor campestre. Mas quem ousará pôr em paralelo um tractor ou mesmo um espectáculo de desporto com uma violeta ou uma papoila? O homem realizado não é para o mundo um rei ou um poderoso: ele parece-se com a violeta e com a papoila. O caminho que leva ao Si Mesmo é estreito como um fio de navalha e ladeado de abismos à direita e à esquerda. Não é senão ao fim de muitos fracassos, de bastantes quedas, que se alcança a justeza que é, ao mesmo tempo, ausência de liberdade, porque adesão total ao inconsciente, e espaço sem limite, uma vez que o inconsciente que se desposa é infinito.</p>
<p align="justify">Os hippies americanos tinham tomado por divisa: <em>Make love, not war</em>. Os seus émulos parisienses – porque a revolta da juventude teve em todo o lado o mesmo sentido profundo – tinham ido mais longe: escolheram, quanto a eles, uma forma mais completa de confronto com o inconsciente. Mediam-se com a sombra, o inimigo, encarnado pelos representantes da ordem, vestidos de sombra, delegados do mundo paterno, hostil, e, ao mesmo tempo, procuravam a conjugação com a forma positiva da alma profunda, a <em>anima</em> junguiana, provedora privilegiada da energia instintiva. Abordavam assim dois aspectos essenciais da obra de realização psicológica, mas faziam-no de forma inconsciente.</p>
<p align="justify">Projectando para o exterior forças saídas deles próprios, perseguindo fora funções cuja realidade estava dentro, privaram-se de qualquer oportunidade de a integrar. A sua revolução e a sua libertação só podiam sofrer o destino de todas as revoluções e de todas as libertações históricas: deixar nos seus heróis um gosto de amargura, de desilusões e de lamentos ingénuos.</p>
<p align="justify">Não poderemos examinar senão brevemente a terceira forma que salientei da contestação de Maio, aquela que se pode considerar a parte central deste tríptico e que é mais actual do que nunca: a utilização de substâncias alucinogéneas para alcançar um ultrapassar do ego. Esta simples menção confirma a justeza da nossa perspectiva: a droga é um meio que busca um contacto desordenado, desajeitado, brutal, mas real, com o domínio inconsciente transpessoal.</p>
<p align="justify">Falei noutra ocasião do segredo do santuário e dos guardiães que o protegem. No caso presente, é uma violação do santuário que teve lugar; mas uma violação nunca foi um bom ponto de partida para um casamento, e quando, para além do mais, os deuses são postos em causa, há razões para temer a sua vingança. Existe a mesma diferença entre a domesticação, a integração dos dragões do inconsciente e a irrupção violenta no seu domínio, que entre a canalização da energia de uma torrente e a ruptura da barragem que a retém. A obra psicológica não é simplesmente a experiência sem amanhã do<br />
domínio profundo, ela não é, atesta-o, “um miserável milagre” (**), é a adução, no campo da consciência clara, das formas pelas quais as águas maternas se manifestam, de modo a estabelecer entre o eu e o não-eu, o consciente e o inconsciente, uma corrente de trocas incessantes e harmoniosas.</p>
<p align="justify">Ainda que os utilizadores das drogas se gabem de voltar as costas à sociedade ocidental, são ainda prisioneiros de um dos seus preconceitos mais solidamente ancorados: em lugar de se tornarem dóceis à vida, eles querem fazer, agir eles próprios sobre ela, esquecendo que não se abre uma flor com os dedos. Ganhariam, sem dúvida, em meditar sobre aquela frase, já citada, do último sábio do ocidente: <em>Não sou eu que me crio, em vez disso, aconteço-me a mim próprio</em> onde toda a vida de Jung mostra que ele subentende: “não me furtando a nenhuma das minhas tarefas, a nenhum dos meus deveres.” Mas isto reclama, evidentemente, muita paciência e muita humildade.</p>
<p align="justify">O breve estudo que consagrámos aos acontecimentos de Maio de 68 mostrou-nos até que ponto a nova geração está cansada das visões teóricas, dos bonitos sistemas, quer sejam materialistas quer espiritualistas, e ávida de uma realização concreta que inclua simultaneamente o espírito, a alma e o corpo. Que depois da explosão de Maio, a ordem tenha regressado a França não deve iludir-nos: esta ordem é tão enganadora, tão frágil, como foi a restauração de Luís XVIII depois dos solavancos da Revolução e do Império. Nada se resolveu. A incapacidade dolorosa dos responsáveis em definir “o homem novo” que a universidade deve formar prova sobejamente a desorientação dos espíritos, e não é de admirar que o novo presidente da República tenha julgado necessário, na sua primeira mensagem oficial, apelar solenemente às autoridade intelectuais e espirituais a que definam o sentido da vida para os homens e mulheres da nossa época. Diversos sinais que Jung soube, melhor do que qualquer outro, pôr em destaque mostram que se trata, hoje, de uma aventura individual.</p>
<p align="justify">O que está em nosso poder, o que, por conseguinte, é nosso dever, é iniciar em nós próprios um trabalho corajoso e lúcido de aprofundamento, para reencontrar a fonte e a fazer correr. Este esforço silencioso e solitário é, paradoxalmente, aquele que se revelará, a longo prazo, o mais proveitoso para a comunidade à qual pertencemos. É uma tal ambição, um tal desejo que, em definitivo, nos reúnem aqui.</p>
<p align="justify">(*) Curso dado em 18 de Dezembro de 1969.</p>
<p align="justify">(**) <em>Miserável Milagre</em> é o título de uma da obras consagradas por Henri Michaux às suas experiência se droga. Um homem vindo da via da droga para a da exploração da alma profunda pelo “deixar acontecer” junguiano declarava-me que ambas conduzem ao mesmo domínio e que a diferença consistia em que a primeira manifesta, sob uma forma caricatural, os dados que a segunda revela. Acrescentarei uma segunda diferença, que é decisiva: é que a nossa via conduz a uma integração que é uma transformação, enquanto na outra, as imagens, depois de terem atravessado o ser, o deixam inalterado e, muitas vezes, empobrecido por aquele fluxo devastador.</p>
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