Câmara Escura – Miguel Torga

Miguel Torga
Poesia Completa
Lisboa, Pub. Dom Quixote, 2000

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Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade

Jacques Salomé
Le Courage d’être Soi
Gordes, Les Éditions du Relié, 1999
Excertos adaptados

Zonas de sombra ou zonas de conflito na nossa personalidade

Todos nós possuímos um potencial psicológico e relacional estruturado à volta de duas espécies de componentes:

* Componentes positivas que actuarão como verdadeiros motores ou estímulos que podem contribuir para iluminar a nossa vida.
* Componentes negativas ou marginais que, pelo contrário, podem agir como travões, limitações ou constrangimentos susceptíveis de agravar, ensombrar e dificultar a nossa existência.

O conjunto das componentes positivas e negativas participa de forma activa na estruturação da nossa personalidade profunda e das nossas relações com o mundo e com os outros. Podemos considerar que as componentes negativas, que alimentam de algum modo a parte sombria e a dimensão conflituante do nosso potencial relacional, se organizam em nós à volta de uma constelação de características ou de traços dominantes.

Funcionam no máximo quando são alimentadas, solicitadas, reactivadas, estimuladas ou exacerbadas pela atitude ou pela componente dominante do outro. Funcionam no mínimo quando são minoradas, atenuadas ou mantidas em surdina pela complementaridade da dominante do outro. Isto é, dependem da importância e da atenção que se atribui ao que o outro estimula ou inibe em nós, nos múltiplos encontros ou relações significativas ao longo da vida.

Quando uma dominante é levada ao excesso, pode provocar comportamentos excessivos, até mesmo patológicos, que correm o risco de se inscrever de forma duradoura em tendências crónicas ou na formação do carácter.

Compete a cada pessoa desenvolver a responsabilidade de tomar consciência da sua componente dominante… electiva ou preferida e, além desta lucidez em relação a si, permanecer igualmente vigilante e atenta para não se deixar arrastar pelas reacções do interlocutor com quem se relaciona ou inicia um novo laço.

Apresentação das componentes negativas da nossa personalidade

A lista das componentes aqui seleccionadas não é exaustiva e emprega alguns termos das categorias existentes. Distinguem-se neste domínio dois grandes tipos de classificação. Umas são sobretudo descritivas, estabelecidas a partir de um inventário da constelação das características de longo curso e dos traços de personalidade mais notórios numa dada pessoa. Outras são estruturais e baseiam-se na análise dinâmica da ossatura mais profunda da personalidade.

Apoiam-se particularmente em três critérios principais, que são a natureza das angústias e dos medos habituais dessa pessoa, os meios ou os mecanismos mais correntes que ela desencadeia para se defender ou se proteger (natureza, variedade, flexibilidade ou rigidez) e, finalmente, o modo como se relaciona com os outros e o mundo que a rodeia. São estas modalidades relacionais que aqui serão privilegiadas e tidas como prioritárias.

A componente sádica ou masoquista

O motor principal desta componente reside na busca do prazer em fazer mal ou sofrer, do gozo de se desqualificar, de se negar ou de sabotar os sucessos possíveis. O sofrimento é por vezes investido como fonte de prazer, numa última tentativa de manter o controle e o domínio de uma situação em que as relações de força não nos são favoráveis.

O masoquista procura em tudo o fracasso. Lamenta-se de só ter desgraças na vida mas, ao mesmo tempo, encontra sempre desculpas ou boas razões para as justificar. Raramente sabe aproveitar os momentos de prazer ou de êxito. Aceita realizar, em benefício dos outros, acções que exigem de si um sacrifício excessivo. Rejeita as ofertas de ajuda ou de conselhos. Ao não acreditar em si, desqualifica implicitamente aquele que o desejaria ajudar, dando-lhe a entender que ele tem pouco valor para ser prestável ou para se interessar por alguém que não vale nada.

Não sabe receber um presente ou um cumprimento. Isto é frequente noutras componentes, mas ele, quando responde: “Não valia a pena”, pensa de facto assim, sem falsa modéstia, humilha-se e sofre com isso. Uma prova: se lhe oferecer um presente verdadeiramente lindo e caro, poderá constatar mais tarde que, como se fosse por acaso, há-de estragar-se ou partir-se.

A dominante construir-se-á em redor de uma estruturação sadomasoquista, quer erotisando o sofrimento recebido, quer sentindo prazer com o sofrimento provocado. A evolução patológica desta dominante levará a perversões tais como: humilhações, tendência para impedir a autonomia do próximo, comportamentos auto destrutivos e destrutivos.

A componente histeróide

Caracteriza-se por um grande investimento no corpo em representação, com manifestações gestuais e expressões corporais excessivas, exageradas, dramatizadas, teatrais, descabidas ou desproporcionadas em relação ao elemento desencadeador ou à situação vivida; por um modo geral de se comportar à base de excitabilidade, de reacção emocional pouco autêntica e despertada por solicitações ou estímulos mínimos. A tolerância às frustrações ou à demora da gratificação é muito fraca. A dominante será uma base relacional de tipo histérico. A expressão patológica desembocará em crises histéricas excessivas, descontroladas.

A componente paranóide

Apoia-se num estado recorrente de desconfiança, num sentimento de perseguição, de rejeição, de exclusão, de não-amor ou de negação, tudo isto baseado numa luta profunda e constante contra qualquer forma de dependência relacional. Estes ressentimentos passarão depois a situações extremadas pelo sentimento de ameaça. A forma paranóide caracteriza- se pela desconfiança, com atitudes persecutórias em relação aos outros, por acusações, pela tendência para pôr tudo em causa, levantar questões, recorrer a procedimentos judiciais, numa atitude permanente de dúvida em relação ao resto do mundo.

A vertente paranóica revela-se na luta contra o risco de ataque ou de intromissão do meio dominante; numa atitude marcada por uma grande prudência, na tendência para atribuir ao outro intenções de prejudicar ou de enganar, no tom erudito, no recurso a evidências e a certezas. A desconfiança dirige-se mais às pessoas do que às situações. A dominante paranóide desenvolve-se sob diversas formas que vão do controle à perseguição e à ameaça, e que podem mesmo passar ao acto. Certos tipos de ciúme agudo e de tendência possessiva podem alternar com fases de fechamento em si próprio de forma defensivo-agressiva.

A forma patológica será a paranóia, que dá a quem dela sofre o sentimento agudo, avassalador e permanente de que o outro é um inimigo potencial, um ser perigoso ou nocivo, uma ameaça. Isto pode levar a fantasmas e passagens ao acto, visando a eliminação e a destruição do outro.

A componente fóbica

É sobretudo caracterizada pelo medo persistente de uma situação ou de um dado objecto, pela procura de segurança, pelo recurso à fuga das situações ou daquilo que possa desencadear angústia ou reactivar um sentimento de insegurança. Fora destas situações ou destes casos bem delimitados, a pessoa não se mostra angustiada nem dá conta disso. O perigo está na generalização das situações desencadeadoras de ansiedade.

A componente fóbica pode trazer consigo uma prolongada redução do potencial da acção e evoluir para uma fobia social. Na sua forma dominante, pode desencadear inibições, bloqueios relacionais e paralisias diversas que trazem consigo limitações importantes e invalidantes no dia a dia (dificuldade de se deslocar sozinho, impossibilidade de fazer compras em certos lugares como as grandes superfícies ou, ao invés, nos pequenos comércios, medo de ser tomado de pânico no cabeleireiro, medo de se pôr a tremer ao segurar um copo ou a chávena do café…).

Continuação: A componente obsessiva

Apresentação das componentes negativas da nossa personalidade – cont.

Jacques Salomé
Le Courage d’être Soi
Gordes, Les Éditions du Relié, 1999
Excertos adaptados

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A componente obsessiva

Compõe-se de atitudes de controlo, de meticulosidade, com uma compulsividade para a arrumação, para a verificação, com uma organização meticulosa ou rigorosa da vida, sem fantasia. Suscita rigidez e comportamentos repetitivos muito desgastantes (perdas de tempo consideráveis, por exemplo). É acompanhada muitas vezes por uma inquietação latente face ao imprevisível e a toda a forma de “acaso”, que impede de viver o presente e de se abandonar à riqueza do instante, com mecanismos de defesa baseados na racionalização, na intelectualização.

A dominante obsessiva traduz-se numa necessidade de classificar, arrumar, controlar, ritualisar ao extremo, a fim de neutralizar as coisas, antecipar o futuro, esquecendo-se de viver o presente, com grandes reservas e dificuldade de dar e de receber. A forma patológica revela-se na avalanche de dúvidas, compulsões, medos irracionais que levam ao isolamento, a fechar-se sobre si, o que provoca por vezes angústias paralisantes. A maior parte das suas energias é mobilizada ou requisitada para evitar o emergir da angústia e dos conflitos internos.

A componente da instabilidade dos humores ou dos comportamentos

Reconhece-se pela variabilidade cíclica das emoções e dos sentimentos, podendo levar ao aparecimento de comportamentos irracionais e imprevisíveis de dimensão exagerada, sem grande relação com as situações que os provocaram. O que caracteriza esta componente é a alternância de fases de excitabilidade (falsa alegria ou boa disposição excessiva, agitação, logorreia) e fases de desânimo, de abatimento, de depressão, de não confiança em si ou de dúvida e confusão.

Esta dominante, baseada numa alternância imprevisível das fases de excitação e de depressão, parece muitas vezes quase independente das estimulações exteriores. A forma patológica será uma maníaco-depressão podendo ir até ao delírio, com passagem a actos e condutas inadaptadas, que inquietam e culpabilizam quem está à sua volta. Pode chegar mesmo ao suicídio ou a depressões profundas.

A componente narcisista

O ego invade todo o espaço social, sendo incapaz de se descentrar e de ter em conta os outros, firmando-se sempre num sentido grandioso da sua própria importância, numa inflação das suas realizações ou capacidades, necessitando sempre de ser reconhecido como excepcional, e isto alternando com fases de desânimo provocadas pelo sentimento de ser indigno ou de nada valer.

Isto porque a maneira habitual de ser é regida por um ideal de si muito elevado, que não admite erros ou hesitações. O sentimento que lhe corresponde é mais o de vergonha do que o de culpa, e as reacções são mais crises de raiva contra si mesmo do que de cólera contra o outro. Usa-se o outro como um meio de se fazer valer ou para atingir os seus fins, tratando-o como alguém cuja função é sobretudo a de reforçar a sua auto-estima.

Baseia-se na ilusão de ser o centro e o senhor do mundo e apoia-se, na sua máxima pujança, numa contradição. Toda a tendência narcísica exagerada afirma-se e proclama-se auto-suficiente, mas ao mesmo tempo tem necessidade da presença do outro para a reconhecer e aprovar. O narcisista pode exercer um verdadeiro terrorismo relacional, porque centra tudo em si. Tudo se passa como se o mundo inteiro devesse reconhecê-lo. Encontraremos inevitavelmente pessoas que apresentam esta componente em postos de poder, para os quais são atraídas…

A componente perversa

Esta componente é difícil de definir em poucas palavras porque o termo tem sido objecto de amálgamas de sentido e de usos redutores. É muito importante dizer algumas palavras a seu respeito pois é talvez, dentre as componentes aqui evocadas, a mais difícil de reconhecer em nós e nos outros. A componente perversa alimenta-se, nas suas formas mais estruturadas, do prazer de fazer mal e de fazer sofrer. Mas caracteriza-se sobretudo por uma forma especial de se relacionar com o outro, reduzindo-o ao estatuto de objecto. A relação perversa traduz-se por uma forma de relação abusiva de ascendente que é a forma mais extrema da relação desigual. Reconhece-se pela influência que um dos parceiros exerce sobre o outro, sem este dar conta.

Opõe-se à relação de domínio obsessivo que resulta de uma diferença clara entre ele e os outros. A relação de domínio perversa apanha o parceiro ou o interlocutor por meio de atitudes sedutoras muito hábeis que lhe conferem um papel de duplo ou de espelho. Por exemplo, neste caso, o emprego do “nós” não tem o mesmo valor do “nós” como sentimento de pertença. É um “nós” que inclui o outro sem lhe pedir opinião, como se fosse evidente que é cúmplice e que não pode viver, sentir, perceber ou pensar de forma diferente da daquele que fala.

Os comportamentos relacionais deste tipo não manifestam a forte oposição das estruturas psicopáticas, que utilizam formas de acção bastante mais evidentes. Apoiam-se num duplo jogo relacional que passa por uma submissão aparente e uma boa colaboração, embora de facto não seja autêntica, pontuada, de uma forma ou de outra, por transgressões constantes das regras e das leis. Estas características são tanto mais perniciosas e ambíguas quanto elas se dissimulam habilmente.

Entre as atitudes relacionais perversas encontram-se também todas as formas de dizer uma mentira para saber a verdade, de apresentar o fictício como real, e todos aqueles jogos do dar a entender e dissimular, da utilização de segredos com o fim de captar a atenção do outro e obter a sua adesão, para o fascinar e atiçar-lhe a curiosidade. Todas as formas de devassamento ou intromissão na intimidade, por exemplo, pertencem a esta categoria. A componente perversa recorre particularmente a mensagens não verbais com numerosas contradições entre o que é dito e o que realmente se transmite ou exprime numa linguagem analógica.

A componente parasitária

Traduz-se pela necessidade de depender de alguém e de reclamar sempre desse alguém. O parasita agarra-se a alguém que lhe pareça suficientemente dador e sólido para responder às suas necessidades. Boca aberta e mão estendida, as primeiras palavras pronunciadas num encontro traduzem um pedido: “Pensaste em mim, devias dar-me…”, “Não te esqueceste de me trazer o que me tinhas prometido?” As modalidades de manipulação são variáveis e de uma habilidade muitas vezes notável e inesgotável. Na maior parte dos casos, o parasita faz crer ao outro que é este que precisa dele. Na sua forma extrema, o parasita agarra-se literalmente a um alter ego que ele vai devorar mais ou menos rapidamente.

Compromisso e evolução

Na perspectiva de um compromisso relacional de longa duração, convém estar atento aos efeitos amplificadores e desestabilizadores do encontro e da confrontação com uma ou outra destas dominantes. Veremos que determinadas dominantes numa pessoa podem ter um efeito inibidor na outra, ou ao contrário, pois certas dominantes podem ter efeitos de estímulo e ampliação que, por sua vez, irão revelar-se também alienantes.

Por exemplo, uma dominante paranóide, ligando-se a uma dominante sadomasoquista, pode chegar a uma relação incrivelmente dolorosa para cada um dos protagonistas, e rapidamente infernal ou impossível. Uma dominante obsessiva, ligada a uma componente histeróide, pode criar paixões loucas e inviáveis, que, no entanto, durarão, para grande
mal-estar de cada um deles.

Caberá a cada um de nós ser não só o mais lúcido possível quanto às nossas componentes e sobretudo relativamente à dominante principal, mas também estar vigilante, atento às componentes e à dominante relacional do outro, particularmente quando se pretende construir uma relação duradoura de compromisso afectivo ou de colaboração com ele…

Os aspectos descritos são de carácter estrutural. Constituem uma parte da armação ou da ossatura da personalidade, por oposição aos sintomas cujas manifestações são as formas mais visíveis. Seria vão e ilusório acreditar no seu desaparecimento. Quando muito poder-se-á pô-los a funcionar no mínimo e aligeirá-los no quadro de um trabalho terapêutico aprofundado que permita intervir ao nível dos mecanismos de defesa principais.

A nossa liberdade no dia-a-dia depende da possibilidade de nos tornarmos mais conscientes e vigilantes relativamente ao que nos afecta, e de nos respeitarmos o bastante para não criarmos ou não nos metermos em situações relacionais que poderão revelar-se catastróficas para nós.

Estas reflexões podem fazer-nos compreender melhor que certas relações estão à partida votadas ao fracasso. Os perigos são por vezes terríveis ao querermos fazer coabitar personalidades inconciliáveis cujas dominantes vão reactivar-se negativamente de forma demasiado forte ou demasiado explosiva.

A dificuldade reside no facto de que em certas relações estamos a maior parte das vezes cegos, siderados ou anestesiados por apostas afectivas, emocionais ou funcionais que parecem prioritárias, o que não nos permite tomar uma posição clara e lúcida… preventiva e salutar.

A criação do inimigo: nós e eles no corpo político

Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)
Ao Encontro da Sombra
S. Paulo, Cultrix, 1998
Excertos adaptados

A criação do inimigo: nós e eles no corpo político

Por mais repulsiva que possa parecer a ideia, precisamos de inimigos. A vida humana parece florescer com eles, parece depender deles.

A criação de um inimigo parece servir um propósito vital: podemos, de um modo inconsciente e indolor, atribuir aos nossos inimigos aquelas características que não conseguimos tolerar em nós mesmos. Quando observada através das lentes psicológicas, a criação do inimigo é uma transposição da nossa sombra sobre pessoas que, por motivos em geral bastante complexos, se adaptam à imagem que fazemos do ser inferior. Basta-nos pensar nas pessoas a quem julgamos, por quem sentimos aversão ou contra quem mantemos preconceitos secretos, para que nos descubramos nas garras da nossa natureza mais escura.

Em termos de país, de raça, de religião ou de qualquer outra identidade colectiva, podemos observar que a criação do inimigo é realizada em proporções míticas, dramáticas e muitas vezes trágicas. Guerras, cruzadas e perseguições constituem o terrível património dessa forma da sombra humana, que é, até certo ponto, um legado da nossa herança tribal instintiva.

As maiores crueldades na história da humanidade foram praticadas em nome de causas virtuosas, quando as sombras de nações inteiras se projectaram sobre a face de um inimigo; e, assim, um grupo “diferente” pode ser transformado em inimigo, em bode expiatório ou em infiel.

A função última de guerrear um inimigo é a redenção. De acordo com o filósofo social Ernest Becker: Se existe uma coisa que as trágicas guerras da nossa época nos ensinaram é que o inimigo tem um papel ritual a desempenhar e, por meio dele, o mal é redimido. Todas as guerras, portanto, são travadas como guerras santas num duplo sentido – como uma revelação do destino, uma prova do favor divino e como uma maneira de eliminar o mal do mundo.

A nossa época viu um incrível desperdício de recursos humanos e materiais, dissipados para manter o jogo da “criação do inimigo” na Guerra Fria. Já comprometemos o futuro dos nossos filhos com armamentos e tecnologias bélicas. Esperamos poder tirar partido destas lições e assim desmontar esta engrenagem obsoleta.

O mundo parece estar à espera de uma nova era de cooperação construtiva, de um novo milénio no qual usaremos, para resolver problemas, a energia que hoje desperdiçamos ao criar o inimigo. O novo inimigo a ser combatido não exige projecção; temos acesso a ele, reconhecendo simplesmente as nossas próprias sombras colectivas e assumindo a nossa responsabilidade, pois ele agora tornou-se manifesto sob a forma do desastre ecológico, do efeito de estufa, da extinção de incontáveis espécies e da privação económica e desnutrição de muitos povos.

PARA CRIAR UM INIMIGO

Sam Keen

Comece com uma tela em branco
e delineie, num contorno geral, as formas
de homens, mulheres e crianças.
Mergulhe fundo no poço inconsciente
da sua própria sombra reprimida
com um pincel largo e
salpique os estranhos com o matiz sinistro da sombra.

Trace sobre o rosto do inimigo
a avidez, o ódio e a negligência que você não ousa
assumir como seus.

Obscureça a doce individualidade de cada rosto.

Apague todos os traços de mil amores, esperanças
e medos que brincam pelo caleidoscópio de
cada coração finito.

Retorça o sorriso até que ele forme um arco
descendente de crueldade.

Arranque a carne dos ossos até que só reste
o esqueleto abstracto da morte.

Exagere as feições para que o homem se metamorfoseie
em besta, verme, insecto.

Preencha o fundo com figuras malignas
de antigos sonhos – diabos,
demónios e guerreiros do mal.

Quando a sua estátua do inimigo estiver completa
você será capaz de matar sem sentir culpa,
trucidar sem sentir vergonha.

A coisa que você destrói tornou-se apenas
um inimigo de Deus, um estorvo
à sagrada dialéctica da História.

Continuação: O Criador de Inimigos

O Criador de Inimigos

Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)
Ao Encontro da Sombra
S. Paulo, Cultrix, 1998
Excertos adaptados

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O Criador de Inimigos

No começo, criámos o inimigo. Antes da arma, vem a imagem. Pensamos em matar os outros e então inventamos a alabarda ou o míssil nuclear com os quais realmente os matamos. A propaganda precede a tecnologia.

Políticos de esquerda e de direita continuam a não entender as coisas. Eles acham que o inimigo desaparecerá no instante em que mudarmos a maneira como nos servimos das nossas armas. Os conservadores acreditam que o inimigo se assustará e ficará manso se tivermos armas maiores e melhores. Os liberais acreditam que o inimigo se tornará nosso amigo se reduzirmos o nosso arsenal bélico.

Ambos raciocinam a partir de premissas nacionalistas e optimistas: nós, seres humanos, somos racionais e pragmáticos animais fabricantes de ferramentas. Ao longo da história, já progredimos bastante e tornamo-nos o Homo sapiens (“homem racional”) e o Homo faber (“homem artífice”). Portanto, podemos fazer a paz através de negociações racionais e do controle de armamentos.

Só que isto não está a funcionar. O problema parece estar, não na nossa razão ou na nossa tecnologia, mas na insensibilidade dos nossos corações. Geração após geração, encontramos desculpas para nos odiarmos e desumanizarmos uns aos outros e sempre nos justificamos com a retórica política que nos parece mais amadurecida. E recusamo-nos a admitir o óbvio. Nós, seres humanos, somos Homo hostilis (“homem hostil”), a espécie hostil, o animal que fabrica inimigos.

Somos levados a fabricar um inimigo como um bode expiatório, para carregar o fardo da inimizade que reprimimos. Do resíduo inconsciente da nossa hostilidade, criamos um alvo; dos nossos demónios particulares, conjuramos um inimigo público. As guerras em que nos envolvemos talvez sejam, no fundo, rituais compulsivos, dramas da sombra nos quais continuamente tentamos matar aquelas partes de nós mesmos que negamos e desprezamos.

A nossa melhor esperança de sobrevivência está em mudar o modo como pensamos os inimigos e a guerra. Em vez de sermos hipnotizados pelo inimigo, precisamos de começar a observar os olhos com os quais vemos o inimigo. Vamos agora explorar a mente do Homo hostilis: vamos examinar em detalhe as maneiras como fabricamos a imagem do inimigo, como criamos um excesso de mal, como transformamos o mundo num campo de matança.

Parece improvável que alcancemos qualquer sucesso no controle da guerra a menos que cheguemos a compreender a lógica da paranóia política e o processo de criação da propaganda que justifica a nossa hostilidade. Precisamos de tomar consciência daquilo a que Carl Jung chamou a sombra.

Os heróis e líderes pacifistas do nosso tempo serão aqueles homens e mulheres com coragem para mergulhar nas trevas do fundo da psique pessoal e colectiva, e enfrentar o inimigo interior. A psicologia das profundezas presenteou-nos com a inegável sabedoria de que o inimigo é construído a partir de aspectos reprimidos do Si Mesmo [O Si Mesmo é o núcleo consciente da psique, o nó mais íntimo da nossa Consciência] .

Portanto, o mandamento radical “Ama os teus inimigos como a ti mesmo” indica o caminho tanto para o auto-conhecimento como para a paz. Na verdade, amamos ou odiamos os nossos inimigos na mesma medida em que nos amamos ou odiamos a nós mesmos. Na imagem do inimigo, encontraremos o espelho no qual podemos ver a nossa própria face com a máxima clareza.

Mas é um facto que existem agressores, impérios do mal, homens e mulheres perversos no mundo real. Existiram e existem vilões reais – Hitler, Estaline, Pol Pot (líder do Khmer Vermelho do Camboja, responsável pela morte de dois milhões de pessoas do seu próprio povo). Assim como só entendemos a luz quando a consideramos como onda e partícula, só poderemos estudar realmente o problema da guerra vendo-a como um sistema que é sustentado por estes pares:

A psique guerreira                  e               A cidade violenta
Paranóia                                  e               Propaganda
A imaginação hostil                 e               Os conflitos geopolíticos e de valores entre os países

O pensamento criativo sobre a guerra sempre envolverá a consideração da psique individual e das instituições sociais. A sociedade molda a psique e vice-versa. Portanto, temos de trabalhar para criar alternativas psicológicas e políticas à guerra, mudando a psique do Homo hostilis e a estrutura das relações internacionais. Ou seja, trata-se tanto de uma heróica jornada no Si Mesmo quanto de uma nova forma de política compassiva.

Não temos nenhuma possibilidade de reduzir as guerras a não ser que observemos as raízes psicológicas da paranóia, da projecção e da propaganda; a não ser que deixemos de ignorar as cruéis práticas de educação dos jovens, as injustiças, os interesses especiais das elites no poder, os históricos conflitos raciais, económicos e religiosos, e as intensas pressões populacionais que sustêm o sistema da guerra.

A paranóia envolve um complexo de mecanismos mentais, emocionais e sociais; através dele uma pessoa, ou um povo, reivindicam para si rectidão e pureza, e atribuem hostilidade e mal ao inimigo. O processo começa com uma divisão entre o lado “bom”, com o qual nos identificamos conscientemente e que é celebrado pela mitologia e pelos media, e o lado “mau”, que permanecerá inconsciente na medida em que puder ser projectado sobre um inimigo. Através dessa prestidigitação, fazemos com que as partes inaceitáveis do ser humano – as suas avidez, crueldade, sadismo, hostilidade, aquilo a que Jung chamou a sombra – desapareçam e só as reconheçamos como qualidades do inimigo. A paranóia reduz a ansiedade e a culpa ao transferir para o outro todas as características que a pessoa não quer reconhecer em si mesma.

Ela é mantida pela percepção selectiva e pela reevocação. Nós vemos e reconhecemos unicamente os aspectos negativos do inimigo que sustentam o estereótipo que já criámos. Por isso, a televisão norte-americana transmite principalmente as más notícias sobre os russos, e vice-versa. Lembramo-nos apenas das evidências que confirmam os nossos preconceitos.

A melhor ilustração da feição paranóica está, sem dúvida, na propaganda anti-semita. Para o anti-semita, o judeu é a fonte do mal. Por detrás dos inimigos acidentais e históricos da Alemanha – Inglaterra, Estados Unidos, Rússia – sempre esteve emboscado o judeu conspirador. A ameaça era simples e oculta a um olhar casual, mas evidente para aqueles que realmente acreditavam na supremacia ariana.

Dentro dessa lógica retorcida, fazia sentido para os nazis desviar os comboios tão necessários ao transporte das tropas até à frente a fim de levar os judeus aos campos de concentração para a “solução final”. Para a mente paranóica, a própria noção de igualdade é impossível. Um paranóico precisa de ser sadicamente superior e dominar os outros, ou masoquisticamente inferior e sentir-se ameaçado por eles.

O Homo hostilis é incuravelmente dualista, um maniqueu moralista:

Nós somos inocentes.
                                   Eles são culpados.
Nós dizemos a verdade – informamos.
                                   Eles mentem – usam propaganda.
Nós apenas nos defendemos.
                                 Eles são agressores.
Nós temos um departamento de defesa.
                               Eles têm um departamento de guerra.
Os nossos mísseis e armamentos destinam-se a dissuadir.
                              As armas deles destinam-se a atacar primeiro.

O mais terrível de todos os paradoxos morais, o nó górdio que precisa de ser cortado se queremos que a História prossiga, é que criamos o mal a partir dos nossos ideais mais elevados e das nossas mais nobres aspirações. Tanto precisamos de ser heróicos, de estar ao lado de Deus, eliminar o mal, limpar o mundo e vencer a morte, que vemos destruição e morte em todos aqueles que se põem no caminho do nosso heróico destino histórico.

Procuramos bodes expiatórios e criamos inimigos absolutos, não por sermos intrinsecamente cruéis mas porque o facto de focalizarmos a nossa raiva sobre um alvo externo e atingirmos um estranho faz com que a nossa raça ou nação se una, e tal facto permite-nos fazer parte de um grupo restrito e bom. Criamos um excesso de mal porque precisamos de pertencer a um lugar que queremos chamar “nosso”.

Por que criamos psiconautas, exploradores das alturas e das profundezas da psique? Por que dramatizamos o guerreiro da batalha interior que luta contra a paranóia, as ilusões, a auto-indulgência, a culpa e a vergonha infantis, a indolência, a crueldade, a hostilidade, o medo, a reprovação, a falta de sentido? Por que é que a sociedade reconhece e celebra a coragem daqueles que lutam contra as tentações demoníacas do Ser, que empreendem uma guerra santa contra tudo o que é mau, distorcido, perverso e ofensivo do Si Mesmo?

Se queremos a paz, cada um de nós precisa de começar a desmistificar o inimigo; de deixar de politizar os eventos psicológicos; de reassumir a sua sombra; de fazer um estudo complexo das mil maneiras pelas quais reprimimos, negamos e projectamos o nosso egoísmo, crueldade, avidez, etc. sobre os outros; de consciencializar a maneira pela qual, inconscientemente, criamos uma psique guerreira e perpetuamos as muitas formas de guerra.

Amigos da alma/Amigos da sombra

Connie Zweig and Steve Wolf
Romancing the Shadow
New York, The Ballantine Publishing Group, 1997
Excertos adaptados

Amigos da alma/Amigos da sombra

Há culturas nas quais a amizade é celebrada através de rituais. Na Índia, os rapazes casam-se duas vezes: na puberdade, com um amigo, numa promessa de amizade eterna, e aos 16 anos, com uma rapariga, também numa relação que se pretende que dure toda a vida. Estes rituais oferecem ao rapaz uma sensação de segurança dentro da precaridade da sua vida. Na Alemanha, existe uma cerimónia para selar uma amizade, que requer que duas pessoas, cada uma com um copo de vinho ou de cerveja na mão, se tornem fisicamente próximas ao entrelaçar os braços e beber à saúde de uma amizade eterna.

Este tipo de amizade não é uma amizade entre personae (as “máscaras”sociais, os papéis desempenhados em público), que surge em determinadas circunstâncias, tais como um ambiente de trabalho comum, uma equipa onde ambos praticam desporto, ou associações de pais. Não decorre de objectivos comuns, sejam as pessoas membros de um clube ou membros de uma comunidade espiritual em busca de um grau de consciência mais elevado.

Numa amizade entre personae, podemos sentirmo-nos atraídos pelas defesas da outra pessoa – dinheiro, sexo ou poder – e tentar conquistá-la para nosso benefício, usá- la para os nossos próprios fins. Podemos fossilizar-nos em determinados papéis (um dos amigos assegura a dependência do outro), em determinadas situações (um dos amigos sente-se superior e o outro sente-se inferior, experimentando vergonha e inveja), ou podemos ainda partilhar o gosto por um passatempo comum, tal como compras ou basquetebol, sem que haja trocas de grande intimidade. Numa amizade entre personae, ambas tendem a ser pessoas sentimentais, o que é um substituto para emoções mais profundas e obscuras.

Numa amizade entre almas, pelo contrário, honramos e reconhecemos a natureza essencial do outro. Os papéis são mais fluidos. O respeito é mútuo. O laço que se forjou não depende do fazer mas do ser. A amizade entre almas exige uma lealdade que vai para além dos sentimentos ou opiniões passageiros do amigo, uma fidelidade que vai para além de objectivos ou aparências temporários. Exige autenticidade, lealdade à alma. Oferece-nos, em troca, um lugar no qual não temos de nos esconder.

A amizade da alma tem diferentes significados em diferentes contextos. Para raparigas que se encontram na adolescência e se tornam inseparáveis, permanecendo juntas durante a faculdade e mesmo depois do casamento e da maternidade, a amizade sobrevive à passagem do tempo. Continua firme apesar das diferentes circunstâncias da vida e das diferenças de desenvolvimento de cada amiga. Pode perder em intensidade, permanecer apenas latente durante anos, ou ser a única relação duradoura que ambas conheceram. Essa amizade proporciona a cada uma das mulheres, na figura da outra, uma testemunha da sua vida e um refúgio.

A memória de uma história partilhada é a chave para estas amizades duradouras. A deusa da memória, Mnemosina, assegura a relação ao permitir aos amigos partilhar o passado, mesmo quando os laços do presente são ténues. Como mãe das Musas, Mnemosina adora devaneios, narrativas, poemas e mitos, bem como as imagens que sustêm as narrativas. Quando os amigos recordam o passado, estão menos interessados nos factos do que do que nas memórias simbólicas, os momentos intensamente sentidos, plenos de profundidade. A amizade, tal como a psicoterapia, permite que esta qualidade subjectiva da memória se manifeste.

Alguns amigos que se encontram anos mais tarde sentem-se como se se compreendessem sem ter de falar. A afinidade transcende a sua história pessoal. Por isso, não necessitam de falar do passado. Falam logo do presente, porque os laços que os unem são intemporais, como se algo tivesse colado os seus destinos.

Aqueles que se sentem atraídos pelas suas afinidades, sentem-se como se estivessem com um gémeo. Tal como aconteceu com os gémeos gregos Castor e Polux, há tribos africanas em que o amigo ideal é o irmão gémeo. Acredita-se também que as crianças nascidas no mesmo dia, embora nascidas separadas, têm um laço a uni-las que durará toda a vida. Personificam o mistério da coexistência de duas pessoas numa.

Outros amigos há que não são atraídos pelas afinidades como pelas diferenças, diferenças essas que os ajudam a manter a sua própria identidade. O amigo é o Outro, aquele que desafia as nossas capacidades e nos impõe limites. No amigo-sombra encontramos o Outro para nos encontrarmos a nós mesmos.

Quando Eve, uma artista de S. Francisco, encontrou Myra, uma estudante de Direito sino-americana, deu-se uma colisão de mundos. As suas diferenças culturais e pessoais eram explosivas. Como reacção a uma mãe controladora, Eve tinha desenvolvido um estilo de vida livre de obrigações, compromissos pessoais ou laborais. Myra, pelo contrário, acreditava no dever para com a família, os amigos e o trabalho. Desejava servir os outros, estruturar o seu tempo, e conservar a sua privacidade e simplicidade. Ambas queriam ser amigas uma da outra. Cada uma delas se sentia atraída pelas diferenças da outra. No entanto, como tinham banido para a sombra muitas das qualidades da Outra, irritavam-se com frequência. Como dizia Eve: “É penoso estar em guerra com a minha própria natureza que está dentro da minha amiga.”

Para que a sua amizade pudesse sobreviver, Eve e Myra tiveram de trabalhar as suas próprias sombras. Tiveram de aprender a ter paciência uma com a outra e a tolerar as respectivas diferenças. Precisaram de observar as projecções da sombra que faziam, de modo a parar com o ciclo de sofrimento que se causavam mutuamente. Se cada uma tivesse tentado converter a outra às suas características, a amizade teria soçobrado. Ao explorarem as suas especificidades e as da amiga, cada uma descobriu formas de se enriquecer e enriquecer a amizade, alargando horizontes até então limitados às suas formas pessoais de ver o mundo.

Há pares para os quais a Alteridade do outro é demasiado sombria e desconfortável. Assim, nem sequer se pode iniciar a amizade. Quando Brian, de trinta e cinco anos, conheceu Sam, de vinte e oito, sentiu-se repelido pelas tentativas deste de estabelecer amizade. Não percebia por que motivo o tom de voz de Sam e a sua abordagem tinham despoletado nele uma reacção tão negativa.

“Quando o Sam fala, é sempre muito gentil, como não quisesse ofender ninguém. Fala sem cessar sobre a sua religião new age. Acha que se todos meditassem como ele, poder-se-ia pôr um fim à violência. Não suporto esta atitude delicodoce, esta negação espiritual do sofrimento da vida. É tão farisaico; fala como se tivesse as respostas para todas as nossas necessidades. Fico doido.”

Brian também tinha estado envolvido numa comunidade de meditação alguns anos antes, e tinha-se sentido profundamente desiludido com as suas práticas e preceitos. Tinha entretanto casado e sido pai, assumindo as suas responsabilidades familiares e laborais. Quando encontrou Sam, foi como se tivesse encontrado uma parte passada de si mesmo, que agora lhe parecia ingénua e inautêntica. Ouviu na voz do outro o seu próprio farisaísmo e pô-lo de lado.

Se, em vez de guardar para si estes sentimentos de vergonha pelo passado, Brian os tivesse trabalhado, talvez sentisse compaixão por Sam, quer se tornasse ou não seu amigo. Como não o fez, ficou refém da sua projecção da sombra e tornou-se cego a qualquer contributo que Sam lhe pudesse trazer. Também não pôde decidir se aprofundava ou não a relação.
James Hillman chamou a atenção para o facto de que o Outro, que se pode tornar amigo ou inimigo, é-nos mais dado que escolhido. Neste sentido, é um instrumento do destino. O reconhecimento de amigos-sombra pressupõe o reconhecimento de laços profundos e o levar a cabo de obrigações mútuas. O falhanço de um dos amigos em desempenhar a sua parte redundará em desapontamento amargo.

Quem é o nosso amigo da alma? Quem é o nosso amigo da sombra? Que amizade sacrificámos devido a uma projecção da sombra?

Domar a sombra

Jean Monbourquette
Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi
Québec, Novalis, 2001
Excertos adaptados

Domar a sombra

A minha sombra é minha amiga ou minha inimiga? Tudo depende da forma como a considero, como me relaciono com ela. Quando a encontramos pela primeira vez, surge como uma inimiga. O desafio é transformá-la em nossa amiga.

A sombra e a auto-estima

Carl Jung lembra que o psiquismo humano é um espaço de lutas íntimas: É sabido que os dramas mais emocionantes e mais estranhos não são os que se passam no teatro, mas sim no coração de todos os homens e mulheres. Estes vivem sem chamar a atenção e não deixam transparecer de forma alguma os conflitos tumultuosos que os habitam, a não ser que se tornem vítimas de uma depressão cujas causas eles próprios ignoram.(1)

É fundamental que reintegremos a nossa sombra. Quem recusar este trabalho sobre si mesmo arrisca-se a ter desequilíbrios psicológicos sérios. Terá tendência para se sentir stressado e deprimido, viverá atormentado por um sentimento vago de angústia, de insatisfação consigo próprio e de culpabilidade. Ficará sujeito a toda a espécie de obsessões e será susceptível de se deixar arrastar pelos seus impulsos: ciúme, cólera mal gerida, ressentimentos, desvios sexuais, gula, etc.

Entre as dependências humanas mais comuns encontramos o alcoolismo e a toxicodependência, que tantos danos causam nas sociedades modernas. Sam Naifeh, num excelente artigo sobre as causas da dependência, afirma: A dependência é um problema da sombra.(2) De facto, a atracção compulsiva pelo álcool e pelas drogas provém da busca incoerente do lado sombrio do nosso ser. Acusamos as substâncias tóxicas de serem a causa de desgraças humanas, mas, na verdade, elas são apenas a sua causa indirecta, pois permitem ao seu utilizador ultrapassar os limites da consciência. Assim, por uns momentos, o utilizador pode identificar-se com o lado sombrio de si mesmo, lado esse que o atrai constantemente. A parte sóbria do alcoólico sentir-se-á permanentemente insatisfeita enquanto não encontrar a parte alcoólica escondida na sombra.

Domar a Sombra para manter relações sociais sãs

Perturbações causadas pela projecção da sombra

Se a sombra não for reconhecida e acolhida, não só criará obsessões como forçará a sua entrada no consciente sob a forma de projecções sobre as outras pessoas.

Quais são os efeitos da projecção da sombra sobre os que nos rodeiam? Sob a influência das projecções da sua sombra, uma pessoa deturpa a sua percepção do real. Atribui aos outros os traços ou qualidades que não quer ver em si. Terá então tendência para idealizar os portadores das suas projecções, para desprezá-los ou para temê-los. Em resumo, o “projector” chegará a ter medo das projecções da sua sombra. Vê-la-á em pessoas que, aos seus olhos, serão fascinantes ou ameaçadoras, como se o seu olhar fosse um espelho deformante.

Quando tais fenómenos ocorrem nas relações sociais, há que esperar conflitos. Por uma curiosa lei de reflexão da luz, as projecções reflectem-se no próprio projector e apoderam-se dele. A pessoa cai sob o fascínio ou a repulsa da sua própria sombra.

À semelhança de um pugilista que treina tentando acertar na sua sombra, estará condenada a executar um contínuo e esgotante exercício de shadow boxing (3).

Resolução dos conflitos criados pela projecção da sombra

Se alguém projecta os seus próprios defeitos ou fraquezas sobre outra pessoa, dificilmente conseguirá tolerar ou amar essa outra pessoa, quer ela seja o patrão, o vizinho, o cônjuge, ou o filho. Este semelhante há-de enervá-lo e há-de dominá-lo. Referimo-nos aqui à maior parte dos conflitos interpessoais e das disputas profissionais.

Para Carl Jung, a tomada de consciência das nossas projecções sobre os outros e do seu reflexo em nós produz não só uma melhoria nas relações interpessoais, mas também um efeito benéfico em toda a sociedade. Segundo Jung, todo o homem que se esforça por estar de acordo com a sua sombra, a fim de reintegrar as suas projecções, faz algo que beneficiará o mundo: Por mais ínfimo que esse trabalho nos pareça, através dele conseguimos encontrar soluções para os enormes e inultrapassáveis problemas do nosso tempo (4).

A moral da lei e a criação de “bodes expiatórios”

Erich Neumann considera que uma ética preocupada apenas em determinar o que é bem e o que é mal é deficiente, porque não ajuda a pessoa a descobrir em si as raízes do mal e a munir-se de meios para as suprimir. Em oposição a esta ética, a que chama A Velha Ética, Neumann propõe uma outra – A Nova Ética – na qual o essencial da formação da consciência moral consiste em realizar a integração da sua sombra.

Neumann vê neste trabalho psico-espiritual um elemento determinante para a formação de uma verdadeira consciência moral. Longe de projectar nos outros as tendências desordenadas da sua sombra, o novo ser moral reconhece-as em si, assume a responsabilidade por elas e depois integra-as numa vida moral coerente.

A Velha Ética leva eventualmente à criação de uma mentalidade de “bode expiatório”, mentalidade que se manifesta, em primeiro lugar, no plano da vida pessoal, como fonte de antipatias e de conflitos de natureza relacional. Por vezes, essa mentalidade corre o risco de tomar proporções gigantescas quando transpostas a uma escala nacional. A este nível, a sombra tenderá a ver o diabo nas nações vizinhas e depois assume a missão de as destruir. Não terá sido esta a origem de numerosos conflitos armados ao longo da história? Pela mesma lógica, os estrangeiros, as minorias e as pessoas “diferentes” serão o alvo preferencial de projecções e transformar-se-ão em “bodes expiatórios”.

Para Neumann, só uma Nova Ética irá possibilitar às nações reconhecerem as suas próprias tendências perversas em vez de as projectarem. Será preciso recordar que as projecções da sombra colectiva não são inofensivas mas podem gerar perseguições e hecatombes, como o extermínio dos judeus pelos nazis?

(1) C.G. Jung, Psychology and Religion: West and East. (Collected Works,7), Bollingen Series, Princeton University Press, 1938, p. 528.
(2) S. Naifeh, “Archetypal Foundations of Addiction and Recovery”, in Journal of Analytical Psychology, 40, 1995, p.148.
(3) Exercício de boxe simulado com a sombra.
(4) C.G. Jung, op. cit., p.140.
Continuação: A concepção junguiana da sombra



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